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Quando a guerra se disfarça de paz: A atualidade do pensamento de Galeano – por Dr. Arcênio Rodrigues da Silva

A distância entre o discurso oficial das guerras e suas reais motivações, em um mundo carente de estadistas e soluções diplomáticas.

“Nenhuma guerra tem a honestidade de confessar: ‘eu mato para roubar’.” A sentença, cunhada por Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio, atravessa o tempo com desconcertante atualidade. Longe de se reduzir a uma provocação retórica, ela opera como chave interpretativa para compreender os conflitos contemporâneos, cujas justificativas oficiais raramente resistem a um exame mais rigoroso.

O cenário internacional recente tem sido marcado por uma multiplicidade de guerras e intervenções, frequentemente deflagradas sob o manto de narrativas moralizantes: defesa da democracia, combate ao terrorismo, proteção de minorias ou restauração da paz. Entretanto, tais fundamentos, quando confrontados com a realidade empírica, revelam-se, não raro, frágeis, seletivos e, sobretudo, instrumentalizados. A retórica humanitária converte-se, assim, em linguagem legitimadora de interesses que dificilmente seriam aceitos se apresentados em sua nudez. 

A experiência histórica demonstra que conflitos armados, em larga medida, estão intrinsecamente associados a disputas por recursos naturais, controle geopolítico, expansão de mercados e afirmação de poder econômico. O que se observa é uma constante dissociação entre o discurso oficial e as motivações subjacentes. A guerra, nesse contexto, deixa de ser um instrumento excepcional de defesa e passa a configurar-se como mecanismo de reorganização de interesses globais, frequentemente à custa de vidas humanas e da soberania de povos inteiros.

Não se ignora que existam situações em que o uso da força possa ser juridicamente debatido à luz do direito internacional, como nos casos de legítima defesa ou intervenções autorizadas por organismos multilaterais. Contudo, mesmo nessas hipóteses, impõe-se cautela: a seletividade na aplicação desses princípios revela uma ordem internacional assimétrica, em que determinados atores detêm maior capacidade de impor suas narrativas e legitimar suas ações.

A crítica de Galeano, portanto, não é simplista nem reducionista; ao contrário, ela desvela a hipocrisia estrutural que permeia o discurso bélico. Ao afirmar que nenhuma guerra admite matar para roubar, o autor denuncia o encobrimento sistemático de interesses econômicos por trás de justificativas moralmente palatáveis. Trata-se de uma crítica que exige do observador uma postura vigilante e analítica, capaz de distinguir entre o discurso e a realidade.

Nesse contexto, torna-se imperativo resgatar o papel do direito internacional não como instrumento de legitimação do poder, mas como mecanismo de contenção de abusos. A prevalência de princípios como a autodeterminação dos povos, a soberania estatal e a proteção dos direitos humanos não pode ser condicionada a interesses circunstanciais ou geopolíticos. Caso contrário, o sistema jurídico internacional corre o risco de se converter em mera retórica normativa, desprovida de efetividade concreta.

A reflexão proposta por Galeano convida à desnaturalização da guerra enquanto fenômeno inevitável ou moralmente justificável. Ao expor a contradição entre discurso e prática, ela evidencia que, por trás das bandeiras e dos slogans, frequentemente se ocultam interesses que pouco têm a ver com os valores proclamados. Reconhecer essa realidade é o primeiro passo para questionar a legitimidade de conflitos que, sob o pretexto de proteger, acabam por devastar.

Se a guerra não ostenta a honestidade de revelar suas verdadeiras motivações, impõe-se à sociedade como um todo e, de forma ainda mais incisiva, à comunidade intelectual, jurídica e acadêmica, à semelhança do que denunciou Eduardo Galeano, o dever de desvelar os interesses subjacentes, submetendo-os ao crivo da razão crítica e da responsabilidade institucional.

Somente por meio desse esforço coletivo de esclarecimento será possível edificar uma ordem internacional que não se sustente na dissimulação retórica, mas na efetiva promoção da paz, alicerçada em parâmetros de justiça, legalidade e compromisso ético com a dignidade humana.

A assertiva de Eduardo Galeano revela, com precisão incômoda, a dissonância entre o discurso e a prática no cenário internacional. A partir dessa constatação, impõe-se avançar para uma reflexão ainda mais sensível: a evidente necessidade de revisão do papel desempenhado pela Organização das Nações Unidas no sistema global contemporâneo.

Concebida no pós-guerra como instrumento de preservação da paz e da segurança internacional, a ONU estruturou-se sob a premissa de cooperação entre Estados soberanos e de contenção de conflitos por meio de mecanismos institucionais. Todavia, a realidade das últimas décadas tem evidenciado limitações estruturais que comprometem sua efetividade. O funcionamento do Conselho de Segurança, notadamente o poder de veto concentrado em poucos Estados, traduz uma lógica geopolítica ainda ancorada no equilíbrio de forças do século XX, o que frequentemente paralisa decisões em momentos críticos e fragiliza a legitimidade da atuação internacional.

Essa disfuncionalidade institucional contribui para o recrudescimento de soluções unilaterais e, por conseguinte, para o enfraquecimento do multilateralismo. Em tal contexto, a diplomacia, historicamente concebida como instrumento primordial de prevenção e resolução de conflitos, cede espaço à lógica da imposição, da força e da retórica beligerante. Trata-se de um retrocesso civilizatório, na medida em que subverte a própria razão de ser da ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial.

É imperativo, portanto, resgatar a centralidade da diplomacia como mecanismo estruturante das relações internacionais. A negociação, o diálogo institucionalizado e a mediação qualificada não constituem sinais de fraqueza, mas, ao contrário, expressões de maturidade política e compromisso com a estabilidade global. A substituição desses instrumentos por ações precipitadas e discursos polarizados apenas intensifica tensões e amplia o custo humano e social dos conflitos.

Paralelamente, impõe-se reconhecer uma acentuada crise de liderança no cenário internacional. O mundo contemporâneo revela-se carente não apenas de dirigentes com projeção política, mas, sobretudo, de líderes efetivamente preparados sob o ponto de vista intelectual, ético e social, capazes de compreender a complexidade das relações globais e de atuar com responsabilidade diante de seus efeitos concretos sobre a vida das populações.

A estatura de estadista não se constrói por retórica ou carisma circunstancial, mas pela conjugação de formação sólida, sensibilidade social e visão estratégica de longo prazo. Em momentos de inflexão histórica, como os que atualmente se apresentam, exige-se liderança dotada de capacidade analítica, discernimento crítico, habilidade de articulação e, sobretudo, compromisso com soluções que transcendam interesses imediatos ou meramente nacionais.

Entretanto, o ambiente político contemporâneo tem sido progressivamente ocupado por discursos simplificadores, práticas populistas e estratégias comunicacionais voltadas ao impacto imediato, em detrimento da reflexão qualificada e da responsabilidade institucional. Nesse contexto, a ausência de preparo intelectual e de consciência social nas lideranças contribui para decisões precipitadas, para o agravamento de tensões internacionais e para a banalização de instrumentos extremos, como o recurso à guerra.

Resgatar a figura do líder como agente de equilíbrio, dotado de formação consistente e sensibilidade coletiva, revela-se, portanto, condição indispensável para a reconstrução de uma ordem internacional orientada pela racionalidade, pela justiça e pela efetiva busca da paz.

A ausência de tais lideranças contribui para a banalização da guerra como instrumento político e para o esvaziamento dos espaços institucionais de diálogo. Sem estadistas, a política internacional tende a ser capturada por agendas circunstanciais, comprometendo a construção de soluções duradouras e equilibradas.

Diante desse cenário, a crítica de Galeano ganha densidade ainda maior: não se trata apenas de desvelar as motivações ocultas das guerras, mas de reconhecer a falência parcial dos mecanismos destinados a evitá-las. A revisão do papel da ONU, o fortalecimento do multilateralismo e a revalorização da diplomacia não são meras opções teóricas, constituem imperativos práticos para a reconstrução de uma ordem internacional minimamente estável e legítima.

Em última análise, a superação da lógica dissimulada que sustenta muitos conflitos contemporâneos depende da conjugação de instituições eficazes e lideranças responsáveis. Sem esses elementos, a retórica continuará a encobrir interesses, e a guerra seguirá sendo apresentada como solução, quando, na realidade, permanece sendo a expressão mais contundente do fracasso político coletivo.

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Dr. Arcênio Rodrigues da Silva é Mestre em Direito, com especialização em Direito Tributário, Constitucional e Direito Público.

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