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“Raptar a namorada” – por Gaudêncio Torquato

Na cidade, havia um costume que encucava minha mente de adolescente, o costume “de roubar a moça”. Para a cabeça de uma criança, raptar uma namorada significava uma coisa ruim.

Um casal de jovens começava a namorar. Quase de longe, sem afagos ou beijos. O pai da moça botava o olho na filha, dando conselhos, “fulano não é para você”; a mãe acrescentava: “Sicrano é feio, não se veste bem”. O pai, firme na expressão: “É um irresponsável”. Eram, assim, os censores da filha; “prendiam-na” na casa, proibindo participação em atos festivos, com exceção de atos religiosos. O rapaz não via o momento de tocar nas mãos da namorada.

Mesmo os pais mais avançados (que permitiam aos pombinhos namorarem na calçada da casa da moça, sentados em cadeiras, mas conservando certa distância uma da outra) exerciam rígido controle. O rapaz costuma chegava por volta de sete horas da noite. Por volta de 8h, aparecia alguém da casa – geralmente uma irmã – trazendo um café para o casal na calçada.

Ora, diante de tanta pressão – e, às vezes, muita oposição – o rapaz, que não tinha a simpatia do pai da namorada, decidia “roubá-la”. A mocinha não suportava a fiscalização. Decidia o casal namorar em outros cantos. Em hora previamente acertada, a moça esperava pelo namorado na esquina ou num beco escuro, roupa na mala, ou em um saco. Escolhiam uma noite de muito movimento na cidade, principalmente em dias festivos e missas noturnas. Os pais iam às missas. Às vezes, até a filha os acompanhava. Mas, na igreja, sentava-se num banco longe dos pais. Fugia, ao começarem os atos, para se encontrar com o amado no lugar combinado.

Os dois se apressavam. A namorada era conduzida geralmente para a casa de um compadre do pai do apaixonado. Assim, com mala e cuia, a moça “fugida” se preparava para casar-se, noivava, sem a concordância dos genitores. A cidade, no dia seguinte, era um mar de fofoca. “Será que fulano ‘buliu’ com ela?”. “Vão se casar quando?” Não raro, os pais dos futuros nubentes entravam num acordo e o final da história era sempre feliz.

Lembro alguns dos muitos casos de “fuga da noiva” ocorridos em Luís Gomes. Um dos mais conhecidos é o de Chico Procópio, que raptou Lourdes, a namorada, e a levou para a casa de Camilo Soares, chefe político. Casaram-se, tiveram 10 filhos, todos bem-sucedidos. Dona Lourdes, neste início de 2025, registra 104 anos.

Outro caso é o de Lúcia, filha de minha tia Ana, irmã de minha mãe, Chiquita, que fugiu com o namorado e foi para minha casa, ou seja, a casa do “seu” Gaudêncio. Mais uma história: Nido, filho de Francinete, dos meus tempos de adolescente, fugiu com a filha de Antônio Augusto, um senhor de Luís Gomes, que chamava a atenção por causa de seu bigode retorcido para cima nas pontas, à moda do Barão do Rio Branco.

Um caso na região do Seridó.

Abro a palavra para o historiador Rostand Medeiros, autor de obras sobre os costumes nordestinos, que contou a história que segue, baseado no texto “Os percalços do namoro”, de Hugo Navarro. Trechos do ensaio:

Logo os cavaleiros chegaram ao sobrado do pai da moça, conhecido como Pedro Estevão, e o sinal previamente combinado foi emitido. Mariazinha, entre assustada e decidida, saiu de casa e montou na sela do cavalo de Zito. Naquele momento em que ela abraçou seu amado sobre a sela do seu cavalo, foi o instante em que até então seus corpos chegaram mais próximos um do outro! Depois deram a volta no quarteirão e, na maior tranquilidade, Zito deixou a garota na casa do comerciante Romulo de Antônio Moreira, um amigo do seu pai. Este, junto com a sua esposa Santinha, seriam as pessoas que guardariam a jovem Mariazinha até o dia do casório. (….) Romulo Moreira foi então à casa de Pedro Estevão e Dona Carminha para comunicar formalmente que Zito havia “furtado” Mariazinha e que ela estava na sua casa, resguardada, protegida, que agora ela era noiva e de lá só iria sair para se casar.

Para os pais da moça, aquele comunicado, feito por um próspero comerciante da localidade, era a certeza que aquilo era um fato consumado. Pedro Estevão e seus familiares não iriam tirar Mariazinha à força da casa de Raimundo, sob o peso de quebrar uma tradição secular no Seridó e iniciar uma intriga duradoura. Com o fato consumado, os preparativos do casamento tiveram início. como não poderia deixar de faltar neste tipo de história, os dois foram felizes para sempre. Esse era o Nordeste de minha infância.

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