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O palanque Mambembe: como a ideologização devastou o teatro brasileiro – por Antonio Fernando Pinheiro Pedro

Na foto histórica que preservo, minha mãe, Floramy Pinheiro, aparece ladeada por Monah Delacy, Sadi Cabral e Alfredo Mesquita, num ensaio da Escola de Arte Dramática (EAD) no início dos anos 1950.

Minha mãe integrou a 3ª Turma da EAD (1950/53), recebendo a dupla distinção (drama e comédia) nos três anos de curso. Foi na EAD que meus pais se conheceram, pois o jovem Armando, então também estudante de direito da São Francisco, gostava de teatro. Casaram-se em 1957, e o Dr. Alfredo Mesquita foi o padrinho de casamento.

Alfredo Mesquita fundou a Escola de Arte Dramática em 1948, seguindo a mesma linha do Actors Studio, situado em Manhattan, na cidade de Nova Iorque, e fundado um ano antes, em 1947, por Elia Kazan, Cheryl Crawford e Robert Lewis.

Tal qual o Actors Studio nos EUA, a EAD foi o marco diferencial na profissionalização da dramaturgia no Brasil. Conhecida por seu trabalho de ensino e refinamento da arte de representação, seguia o mesmo método desenvolvido nos anos 30 pelo Group Theatre, baseado nas proposições de Konstantin Stanislavski.

Posso dizer que Alfredo Mesquita iniciou com a EAD o mesmo trabalho que Lee Strasberg implementou posteriormente na direção artística do Actors Studio, nos anos 1950. O reconhecimento do trabalho é histórico, seja pela qualidade inovadora da técnica de submersão no personagem, seja pela busca por linhas inovadoras, como a interpretação naturalista, o teatro do absurdo e o teatro de arena.

A EAD dos primeiros anos mantinha um corpo docente formado por Cacilda Becker, Ruggero Jacobbi, Gianni Ratto, Adolfo Celi, Chinita Ulmann, Marcel Marceau, Zbigniew Ziembiński, Mariajosé de Carvalho, entre tantos outros expoentes da arte cênica mundial. Desenvolveu expoentes não apenas na dramaturgia em cena, como também na produção, direção, roteiro, cenografia, figurinismo, iluminação, etc.

Minha mãe, carinhosamente apelidada de Mimi Pinheiro, seguiu carreira reconhecida nos Teatros de Arena (do amigo e posteriormente meu cliente, José Renato), e Maria Della Costa, e também na TV, onde estreou teleteatro e novelas pioneiras na TV Paulista.

Em 1965, minha mãe optou por encerrar a carreira e criar os três filhos. Mas o maior motivo dela foi a decepção com o aparelhamento ideológico, que à época começava a contaminar as relações pessoais e a dramaturgia nacional. Para quem integrou a geração que conferiu dignidade à profissão, que prezava pela técnica, pelo profissionalismo, que introduziu Ionesco e Pirandello nos palcos, performou Arthur Miller e Nelson Rodrigues, restaurou Molière e Shakespeare, ver atores serem compelidos pelo meio a militarem causas estudantis era o mesmo que transformar teatro em palanque político, e transformar política em espetáculo mambembe.

Há, de fato, uma linha tênue, porém definitiva, entre buscar o protesto na arte e transformar arte em protesto. Essa lição é aprendida desde Ésquilo, Sófocles, Eurípedes e Aristófanes. Minha mãe aprendera a lição desde jovem. No entanto, o meio artístico não. 

A mesma decepção que acometeu minha mãe, o próprio Dr. Alfredo Mesquita sofreu. Ele, enojado, testemunhou a EAD ser “ocupada” em 1968 por um comitê de estudantes, que barrou a entrada dos funcionários e professores “não alinhados” e resolveu “intimá-lo” a comparecer à “Assembleia Estudantil Permanente”, tocando a campainha da casa de suas irmãs – e não a dele, em Higienópolis.

Dr. Alfredo refugiou-se em nossa casa, na Aclimação, permanecendo ali com meus pais até a turba desistir. Foi então que ele decidiu doar a Escola de Arte Dramática para a Universidade de São Paulo. Ele não o fez por amor à USP, mas por horror à lambança ideológica que sofreu na própria pele.

Eu tinha 9 anos à época e testemunhei todas as conversas. O tempo nos faz ver com mais clareza antigos episódios vividos, analisando-os com mais lucidez que os mais recentes. Percebo hoje o desastre que foi aquele momento, o mal que a caneta esquerdizante perpetrou sobre a arte e a cultura no Brasil.

O Prêmio Saci, no mesmo período, foi praticamente desmontado pelo choque ideológico travado pela classe artística engajada contra os Mesquita, donos do Estadão, que reagiram desativando a premiação, iniciada em 1951, e reduzindo drasticamente o espaço da crítica teatral em nas páginas do jornal, consolidando um ambiente de polarização onde a produção cultural desengajada perdeu terreno para a urgência da militância e da “resistência política” da época.

Minha mãe, como outros atores de peso nos anos 50 e 60, foram deliberadamente esquecidos pela crítica “engajada”, por não servirem “à causa da resistência”. 

Jorge Amado, em importante depoimento acessível nas redes sociais, relatou ter deixado de escrever quando passou a militar no comunismo. Concordo com ele; fomos aos poucos, todos esses anos, sendo destituídos de todos os sentidos das artes no Brasil: da música à pintura, do cinema ao teatro, passando pela televisão, na exata medida em que o esquerdismo foi se apropriando do cenário artístico nacional.

Gente reacionária nunca se preocupou e nem se preocupará com arte. Não está na agenda desse povo. Nunca esteve. Essa é a razão, por exemplo, de no período do regime militar – e também nos atuais governos de direita,  administrações formadas por gente absolutamente ignorante, não atentarem para a chamada “infiltração” esquerdista nas artes. Aliás, o ambiente de censura somada à essa característica ignorância, permitiu que se montasse uma bolha cultural autônoma – um “regime de resistência” que praticamente exterminou produtores, diretores, atores e criadores que não comungavam com o marxismo cultural. 

Embora tenha ocorrido perseguição, tortura e morte de quadros caros à cultura nacional nos “anos de chumbo”,  a pior perseguição ocorreu silenciosamente… e ainda ocorre, com a segregação sistemática de quem não comunga com a “cartilha”.

Não foi a “ditadura”, não foi o “capitalismo”, não foi o “imperialismo”: foi o próprio mercado que dizimou a cultura nacional, tomado pelos mesmos que se diziam vítimas daquilo que praticavam. É um fato e um grande dilema: esquerdismo leva à disfunção cognitiva ou é efeito dela.

Cresci num ambiente intelectual muito avançado. Minha casa era um sarau cotidiano inserido numa grande biblioteca. Minha mãe saíra dos palcos, mas os amigos mantiveram a amizade. Artistas e intelectuais frequentavam a casa e ali se abriam sobre o clima de angústia – não com a “ditadura”, mas com o patrulhamento constante que sofriam, as intrigas cotidianas que destruíam projetos e conduziam a classe para uma entropia performática.

Enfim, o resultado de tudo isso – que só piorou após a chamada “abertura democrática”, está aí: à vista de quem quer ver. E ainda há quem tenha a cara de pau de agradecer ao governo o “favor” de dar migalhas para uma atividade, que por si própria, escolheu se afundar .

Que fique aqui meu desabafo.

Antonio Fernando Pinheiro Pedro é advogado (USP), jornalista e consultor estratégico e ambiental. Sócio fundador do escritório Pinheiro Pedro Advogados, é diretor da AICA – Agência de Inteligência Corporativa e Ambiental.  É  Editor-Chefe do Portal Ambiente Legal e responsável pelo Blog Analítico The Eagle View.

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