Sou jornalista, mas não estou jornalista. Parafraseio aqui uma frase de um intelectual, antigo Ministro da Educação durante a Ditadura Militar, no governo do Gen. João Figueiredo, chamado Eduardo Portella, que assumiu o cargo em 1979. Foi em novembro de 1980, sob uma forte instabilidade política e econômica, greves nas universidades e o apodrecimento do regime vigente, que ele disse: “Eu não sou ministro, eu estou ministro”. Depois, deixou o cargo.
Portanto, não escrevo aqui uma denúncia, pois estas linhas não são frutos de uma minuciosa investigação comprobatória. Vejam, não me utilizo de mentiras, má-fé ou falta de provas, como a revista semanal Veja, publicada neste dia 09/10/2026, à qual aqui vou me referir, ainda num momento de campanha eleitoral para a Presidência da República. Apenas vou alinhavar alguns fatos e levantar algumas questões que ponderei e que, no exercício da minha cidadania, me sinto no direito de expor e compartilhar.

A reportagem da revista semanal — que apostaria não ter sido lida por quase ninguém — acabou rapidamente ganhando repercussão nas redes sociais, sendo referida em tom de urgência eleitoral até mesmo pelo candidato Flávio Bolsonaro. Trata-se de um áudio do detento, o empresário e ex-banqueiro Daniel Vorcaro, acusado de fraude, estelionato, formação de quadrilha e outros crimes mais. Neste áudio, ele teria afirmado que pagou R$ 30 milhões, em espécie, ao Instituto Lula para o financiamento de um documentário dirigido pelo renomado cineasta Oliver Stone, que estreou em maio de 2024, com 90 minutos de duração e, por sinal, sem grande repercussão.
Como também não teve repercussão a primeira denúncia do episódio, em matéria na mesma revista, de quando veio à tona o áudio real entre Flávio Bolsonaro e o mesmo Daniel Vorcaro, no caso do dinheiro para o filme Dark Horse, até hoje não explicado. Se, naquela oportunidade, o caso não gerou consequências por falta de provas cabais — assim consideraram a PF e a PGR —, a revista da Editora Abril retoma o mesmo assunto, mas com intenções claras e óbvias: ser um mero instrumento na criação de um factoide para, através das redes sociais, atingir a campanha para a reeleição do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Aí se caracteriza claramente um crime eleitoral de difícil correção, faltando poucos dias para a votação nas urnas. Mais do que a prática de um jornalismo baixo, tendencioso e partidário, trata-se de uma bandidagem camuflada como imprensa.
Reiteradamente expresso minha surpresa com a indignação de muitos colegas experientes com o comportamento dos nossos meios de comunicação. Ele sempre foi conservador, mesmo pagando por isso num futuro incerto. Foi assim com o presidente Getúlio Vargas bancando a criação do periódico Última Hora, e com o político Carlos Lacerda com o jornal Tribuna da Imprensa. Sem esquecer das concessões do regime militar para a família Marinho, a grana dos EUA do grupo Time-Life, e por aí vai. Sem falar no conservadorismo histórico da família Mesquita.
Mas vamos para a atualidade do Grupo Abril:
1. A editora, que pertencia à família Civita no passado, foi adquirida pelo empresário e advogado Fábio Carvalho, através da Enforce/Calvary Investimentos — especialista em recuperar empresas quebradas —, por um valor simbólico de R$ 100 mil, mas herdando a renegociação de uma dívida de R$ 1,6 bilhão num processo de recuperação judicial.
2. A transação contou com o suporte e a articulação da Enforce, empresa de recuperação de créditos ligada ao BTG Pactual.
3. Em janeiro de 2022, a Justiça de São Paulo decretou o encerramento do processo com a quitação de 99,4% dos créditos previstos sob a gestão de Fábio Carvalho, que assumiu o controle em 2018.
4. Nesse período, a investigação sobre o Banco Master se envolveu com o BTG Pactual na compra de ativos por parte de Daniel Vorcaro, além de operações com carteiras de crédito e títulos podres.
5. Hoje, a saúde financeira da Holding Abril é sustentada de maneira desproporcional pelo braço de logística e-commerce Total Express e pela Casa COR. O núcleo editorial encolheu.
6. Em janeiro de 2025, numa nova estrutura, o ex-diretor da revista Veja, Maurício Lima, foi nomeado CEO das operações editoriais.
7. Anos antes, numa entrevista para a revista TriNova, de Piracicaba, Maurício Lima declarou que a revista Veja atendia aos interesses da linha política da direita. É o fim.
Apenas algumas observações de todo esse lodaçal. Enfim, seria muita ingenuidade da minha parte pensar que o corporativismo dos grupos de imprensa sequer levantaria a hipótese de investigar um órgão do seu próprio corpo. Mas tenho a intuição, feitas essas observações, de que se acaso existisse uma investigação séria sobre todos esses procedimentos em relação ao que aqui foi colocado, muita sujeira e transações nebulosas viriam à tona.
Na fé. Até. Saravá.












