No início, os governistas menosprezaram e chegaram a ironizar a entrada de Flávio Bolsonaro nas eleições presidenciais. No final do ano passado, assim que foi indicado por seu pai para concorrer ao Palácio do Planalto, Flávio amargava parcos 5% de intenções de voto. Era um pangaré sem chances de fazer ao menos cosquinha na campanha de Lula.
Naquela oportunidade, os governistas estavam mais preocupados com Tarcísio Gomes de Freitas. Afinal, era o candidato conservador com melhor desempenho nas pesquisas. Olharam para Tarcísio e não perceberam a sombra de Flávio se esgueirando furtivamente na campanha.
Crescimento vertiginoso
O novo adversário de Lula partiu de um desempenho quase insignificante nas pesquisas, subiu vertiginosamente e hoje sem grandes esforços empata com o petista em um eventual segundo turno. O governo errou feio em sua avaliação eleitoral. Depois do susto em ver os números dos levantamentos de alguns institutos, acendeu a luz amarela nas conversas petistas.
Talvez os governistas tenham se acostumado tanto a apontar defeitos em Jair Bolsonaro que acabaram acreditando em suas próprias palavras, de que o ex-presidente, hoje preso e após ter perdido as últimas eleições, estava acabado politicamente. Grande equívoco. Assim que Jair chancelou o nome de Flávio para concorrer, houve uma transferência quase generalizada do seu eleitorado para o filho.
Medidas sem resultado
Lula tem feito o que pode para reverter a forte impopularidade acumulada. Uma das maiores de toda a sua história política. Imaginou que, se começasse a bater em Flávio desde o princípio, poderia, desnecessariamente, dar a ele um protagonismo indesejável para a sua campanha. Por isso, procurou projetar a imagem de seu governo de maneira positiva.
Medidas populistas, como a isenção do imposto de renda para rendimentos até R$ 5 mil, por exemplo, até aqui, entretanto, não surtiram efeito. Essas bondades eleitoreiras não foram suficientes para contrapor o desgaste proporcionado pelas notícias mais recentes, como os escândalos do Banco Master e os desvios de recursos do INSS.
Acusações para desqualificar
Como não deu certo promover as ações positivas, a decisão agora é tentar desqualificar o oponente. Como a imagem de Flávio está intimamente ligada à de Jair, a ordem é bater nos dois. O próprio Lula tentou jogar no colo de Bolsonaro o caso do Banco Master. Disse que os problemas tiveram origem no governo bolsonarista, que o ex-presidente foi o ovo da serpente.
Tirou da gaveta também o nome de Campos Neto, um dos alvos de seus ataques durante sua gestão à frente do Banco Central. Na época eram as elevadas taxas de juros, agora diz que os desmandos do Banco Master tiveram origem em sua época no Bacen e que ele não fez nada para coibir.
E Lula já conta também com a ajuda de alguns “especialistas” nessa campanha. Ouve-se aqui e ali que Flávio não é tão moderado quanto pretende se mostrar. Para fazer frente a esses comentários de parte da grande imprensa, Flávio conta com o apoio das redes sociais.
Lula sentiu na pele
Parece improvável que essa “terceirização” de responsabilidade dê resultado. Por mais eloquentes que sejam as palavras de Lula, muitos de seus companheiros estavam nas entranhas do escândalo. Mas tenta, pois deve partir do pressuposto de que uma mentira contada mil vezes se torna verdade.
Lula sabe como ninguém o que significa negligenciar um adversário. Entre os anos de 2015 e 2016, a Operação Lava Jato estava no auge do escândalo, provocando uma das mais graves crises políticas da história. O líder petista encontrava-se no olho do furacão. Qualquer político, com um pouco de experiência, podia avaliar que o desfecho seria inevitável: Lula se encaminharia para o ostracismo, para nunca mais voltar.
Deixem o homem sangrar
O pensamento que pairava no ar, ainda que não fossem estas as palavras exatas, era: deixem o homem sangrar. Uma forte alusão de que Lula estava sangrando e que, sozinho, sem que ninguém precisasse provocar, se autodestruiria. Pois é. Não apenas não foi aniquilado, como voltou poderoso para continuar governando o país.
Tendo experimentado na pele essa verdade, Lula orientou os deputados da sua base para que passassem a fustigar Flávio. Ou seja, não esperem Flávio sangrar. As ações são previsíveis. Histórias e narrativas mais ou menos adormecidas voltarão a aparecer em discursos e pronunciamentos, como se obedecessem a uma equação matemática.
O começo da pancadaria
Vamos ouvir à exaustão relatos sobre as rachadinhas, compra de imóvel, desvios de recursos tendo como desculpa a loja de chocolate. Flávio já sofreu esses ataques durante anos. De certa forma, está calejado e pronto para dar, como já tem dado, as explicações. Vamos ver o que terá mais efeito no eleitorado. Será que as acusações ao passado de Flávio ou a percepção de que existem ligações diretas ou indiretas do governo com os escândalos atuais?
Ah, e tem ainda a inflação real nas compras dos supermercados e o preço do combustível. Esses fatores atingem diretamente o bolso dos eleitores. E são eles que, em última instância, ajudam na decisão do voto. Siga pelo Instagram: @polito












