Com a aproximação do período eleitoral, que conta com mais de uma dezena de ex-secretários, agentes e chefes de polícias com intenção de candidatura nas esferas estaduais e federais, o tema da segurança pública estará, definitivamente, no centro das atenções. Acima de tudo, o assunto tem o potencial de definir a inclinação de votos de eleitores que buscam por soluções práticas e imediatas neste campo; brasileiros assustados com os crimes que chegam perto de suas casas ou rotinas.
Para além dos desafios já conhecidos, os futuros governantes também enfrentam a desconfiança da opinião pública. Para 27% dos que responderam à pesquisa Genial/Quaest, em março deste ano, a violência/segurança pública é o principal motivo de preocupações, seguido por corrupção (20%) e problemas sociais (18%). Essas são questões de origem estrutural, relacionadas à organização do próprio sistema e também à percepção sobre as forças de segurança.
A efetividade policial, quando não associada à ausência, por vezes está vinculada a episódios que demandam revisões de condutas dos agentes e foras de segurança. O caso da megaoperação Contenção, realizada nos complexos do Alemão e da Penha, em outubro do ano passado e que resultou na morte de 122 pessoas (entre suspeitos e policiais), é um exemplo. Uma análise já iniciada pelo MPRJ, das mais 3.600 horas de gravações produzidas pelas Câmeras Operacionais Portáteis (COPs) de policiais que participaram da ação, identificou preliminarmente a retirada do equipamento em 17,6% dos casos analisados, além de mencionar que em cerca de 7,8% dos casos há “indícios de obstrução intencional da imagem”.
O caso reforça que a demanda por investimento em tecnologia de vídeo e comunicação integrada, como câmeras corporais, mas também sistemas de monitoramento móvel e de identificação de criminosos, tende a ser ainda mais valorizado frente à opinião pública e como agenda central para governantes e líderes políticos. Na prática, a integração desses instrumentos operacionais permite monitorar e orientar a atuação em campo, apoiar decisões baseadas em evidências e viabilizar o cruzamento de dados, contribuindo para uma gestão mais consistente da segurança urbana.
Iniciativas como o programa Smart Sampa, na cidade de São Paulo, ajudam a ilustrar esse movimento. Com cerca de 50 mil câmeras conectadas, incluindo equipamentos públicos e privados, e uso de inteligência artificial para reconhecimento facial e leitura de placas, o sistema já contribuiu para a prisão de mais de 3 mil foragidos e 4,7 mil presos em flagrante, segundo dados da Prefeitura. Já a rede de monitoramento Gabriel auxiliou a polícia em mais de 5 mil investigações e contribuiu diretamente para a prisão de 336 suspeitos e para a inocência de 8 pessoas acusadas injustamente na região do Rio de Janeiro e de São Paulo.
A experiência mostra que a adoção desses sistemas exige estruturação de modelos para revisão de imagens e protocolos de supervisão claros para lidar com desvios de conduta. Sem isso, o potencial das ferramentas dificilmente poderá escalar para outros municípios.
O projeto de segurança em cidades brasileiras também passa pela melhoria de processos e burocracias para a aquisição das ferramentas. Ciclos de compra prolongados por órgãos públicos frequentemente resultam na defasagem tecnológica dos equipamentos, enquanto os custos de manutenção pressionam a sustentabilidade das operações no longo prazo.
O uso estratégico e responsável dessas tecnologias não deve ser entendido como solução isolada, e precisam ser acompanhadas de investimento contínuo em capacitação, para que as corporações consigam transformar dados em inteligência aplicada e transformar as decisões em estratégias para alocação de efetivo, despacho de viaturas ou na identificação de padrões e suspeitos. Não se trata só de se estabelecer cidades mais inteligentes, mas, sim, cidades seguras, com menor tempo de resposta, integração de dados-imagens-comunicação em centros de controle e atuação assertiva.
Quando integradas a processos, governança e capacitação, essas ferramentas contribuem para orientar políticas baseadas em evidências e para fortalecer a confiança entre sociedade e instituições, avançando em um projeto consistente de segurança para as cidades brasileiras.
*Wellington Carvalho, Gerente de Desenvolvimento de Negócios da Hytera Brasil












