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Estamos mais doentes ou só menos pacientes com o próprio corpo? – por Cristiane Sanchez

Em 1975, Ivan Illich publicou Nêmesis da Medicina, obra na qual advertia que uma sociedade poderia perder autonomia sobre a própria saúde ao transferir para as instituições médicas experiências que também pertencem à vida, às relações sociais e à maneira como cada pessoa cuida de si. Sua crítica não negava a importância da medicina nem os avanços capazes de prevenir doenças, reduzir incapacidades e salvar vidas. O que Illich questionava era a transformação progressiva de todo desconforto humano em um problema técnico que deveria receber imediatamente um diagnóstico, um procedimento ou uma prescrição.

Cinco décadas depois, essa reflexão deixou de ser apenas filosófica. Tornou-se também uma questão de saúde pública. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde, mais de um bilhão de pessoas viviam com algum transtorno mental em 2021, sendo os transtornos de ansiedade e depressivos os mais frequentes. No Brasil, o Ministério da Previdência Social informou a concessão de 546.254 benefícios por incapacidade temporária associados a transtornos mentais e comportamentais em 2025. O número revela o impacto do sofrimento psíquico sobre a vida cotidiana, o trabalho, as famílias e o sistema de proteção social.

Esses dados não autorizam uma conclusão apressada de que as pessoas estejam sendo diagnosticadas ou medicadas sem necessidade. Ansiedade, depressão e outras condições mentais são doenças reais, podem provocar profundo comprometimento funcional e exigem acompanhamento qualificado. Medicamentos, psicoterapia e outras intervenções salvam vidas. A própria OMS reconhece que grande parte das pessoas com transtornos mentais ainda não recebe cuidado adequado. Faltam serviços, profissionais, continuidade assistencial e acesso equitativo, principalmente entre populações socialmente vulneráveis. Portanto, convivemos com dois problemas aparentemente opostos: algumas experiências podem ser rapidamente medicalizadas, enquanto muitas doenças permanecem sem diagnóstico ou tratamento.

Reconhecer essa tensão é fundamental. A crítica à medicalização não pode se transformar em descrédito aos diagnósticos, assim como a defesa do tratamento não deve nos impedir de analisar o contexto no qual os sintomas aparecem. Entre ignorar o sofrimento e convertê-lo imediatamente em doença existe um espaço decisivo: o da compreensão.

Um sintoma não possui uma única tradução. O cansaço pode resultar de privação de sono, excesso de trabalho, alterações hormonais, anemia, infecções ou depressão. A insônia nem sempre nasce da ansiedade; pode refletir dor persistente, consumo de estimulantes, horários irregulares ou doenças que precisam ser investigadas. A dor, por sua vez, tanto pode indicar uma lesão recente quanto representar a persistência de mecanismos de sensibilização do sistema nervoso. Até mesmo a tristeza exige contexto. Em determinadas situações, ela faz parte da resposta humana às perdas; em outras, constitui um quadro depressivo que necessita de tratamento. O sintoma comunica que existe um problema, mas nunca revela sozinho toda a sua história.

Compreender sua mensagem, portanto, não significa atribuir ao corpo uma voz misteriosa nem buscar explicações simbólicas para todas as doenças. Significa investigar quando o sintoma começou, em que circunstâncias aparece, o que o agrava, o que o alivia, quanto tempo permanece e de que maneira interfere na vida. Significa reconhecer que manifestações semelhantes podem nascer de processos completamente diferentes e que silenciá-las sem examinar sua origem pode oferecer alívio sem necessariamente produzir cuidado.

Essa capacidade de observação integra o que Michel Foucault identificou, na filosofia antiga, como “cuidado de si”. Não se tratava de uma prática de vaidade ou de uma tentativa individualista de alcançar bem-estar permanente. O cuidado de si envolvia atenção à própria conduta, aos hábitos, aos limites e à maneira como a pessoa se relacionava consigo e com os outros. Era uma forma de participar ativamente da própria existência, em vez de entregar integralmente a terceiros a responsabilidade por conduzi-la.

Uma percepção semelhante aparece no primeiro capítulo do Huangdi Neijing, texto fundamental da medicina chinesa, ao relacionar a preservação da saúde à regularidade do sono, à alimentação, ao movimento, ao equilíbrio entre atividade e repouso e à moderação dos hábitos. Embora escrito em outro contexto histórico e apoiado em uma concepção médica diferente da atual, o texto apresenta uma ideia que permanece relevante: o modo de viver influencia profundamente o modo de adoecer.

A ciência contemporânea oferece evidências que reforçam parte dessa compreensão. Uma revisão sistemática com metanálise em rede publicada pelo British Medical Journal em 2024 reuniu 218 estudos e 14.170 participantes. Os resultados indicaram que caminhada ou corrida, treinamento de força, yoga e outras modalidades de exercício reduziram sintomas depressivos, com benefícios clinicamente relevantes. Os autores não propuseram abandonar medicamentos ou psicoterapia. Defenderam que o exercício seja considerado uma das intervenções centrais no tratamento da depressão, respeitando as condições clínicas, as preferências e as possibilidades de cada pessoa.

Esses resultados reforçam que o tratamento da depressão não se restringe às intervenções farmacológicas. Atividade física, sono adequado, alimentação, vínculos sociais e manejo do estresse não são recomendações complementares. São parte integrante do cuidado. Isso não significa dispensar medicamentos ou psicoterapia quando indicados, mas reconhecer que uma prescrição, isoladamente, pode não responder à complexidade do sofrimento humano.

O problema surge quando a busca por uma solução rápida substitui a compreensão do contexto em que o sintoma aparece. Cansaço conduz ao estimulante antes que se investiguem o descanso e as causas clínicas. Insônia conduz ao sedativo antes que se examinem os hábitos, a dor, a ansiedade ou os distúrbios do sono. A dor é interrompida repetidamente sem que se avaliem a sobrecarga e os mecanismos que a mantêm. A tristeza recebe um rótulo antes que se compreendam a perda, o isolamento ou a duração do sofrimento. Em outros casos, ocorre o inverso: sintomas persistentes são normalizados, e pessoas que necessitam de assistência permanecem sem diagnóstico e sem acesso ao cuidado.

Por isso, a discussão não deve colocar medicamentos de um lado e autocuidado do outro. Essa oposição é falsa e pouco útil. O tratamento adequado pode incluir fármacos, psicoterapia, atividade física, acupuntura, práticas corporais, mudanças de hábitos, apoio social e outras intervenções respaldadas pelas necessidades e pelas evidências disponíveis. A questão central é saber se estamos apenas eliminando manifestações ou compreendendo a pessoa que as apresenta.

A medicina continuará produzindo diagnósticos mais precisos, tecnologias mais avançadas e tratamentos mais eficazes. Esse progresso é indispensável. No entanto, cuidar da saúde também exige recuperar uma competência que nenhuma tecnologia exerce em nosso lugar: perceber mudanças, reconhecer limites e participar conscientemente das escolhas que moldam a própria vida. Um sintoma pode ser o início de uma doença, a expressão de um desequilíbrio ou a manifestação de uma experiência humana que ainda precisa ser interpretada. Antes de silenciá-lo, vale perguntar o que ele comunica. Afinal, entender essa mensagem também faz parte do cuidado.

Referências

  1. Illich I. Nêmesis da Medicina: a expropriação da saúde. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1975.
  2. Foucault M. A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes; 2004.
  3. Huangdi Neijing. Clássico Interno do Imperador Amarelo. Capítulo 1.
  4. World Health Organization. World mental health today: latest data. Geneva: WHO; 2025.
  5. World Health Organization. Mental Health Atlas 2024. Geneva: WHO; 2025.
  6. World Health Organization. Mental disorders. Fact sheet. Geneva: WHO; 2025.
  7. Brasil. Ministério da Previdência Social. Previdência Social concede 546.254 benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais. Brasília; 2026.
  8. Noetel M, Sanders T, Gallardo-Gómez D, et al. Effect of exercise for depression: systematic review and network meta-analysis of randomised controlled trials. BMJ. 2024;384:e075847. doi:10.1136/bmj-2023-075847.
  9. Bellón JA. Exercise for the treatment of depression. BMJ. 2024;384:q320. doi:10.1136/bmj.q320.
  10. Lopes CS, Hellwig N, Silva GA, Menezes PR. Inequities in access to depression treatment: results of the Brazilian National Health Survey. International Journal for Equity in Health. 2016;15:154. doi:10.1186/s12939-016-0446-1.
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