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Estamos perdendo a capacidade de ouvir o próprio corpo? – por Cristiane Sanchez

Vivemos cercados por tecnologias capazes de monitorar praticamente tudo. Relógios inteligentes acompanham os batimentos cardíacos, aplicativos registram o sono, exames laboratoriais revelam alterações invisíveis aos olhos e sensores avisam quando é hora de se levantar da cadeira.

Nunca produzimos tantos dados sobre o organismo.

Paradoxalmente, talvez estejamos menos capazes de perceber aquilo que o corpo tenta comunicar espontaneamente.

Essa capacidade recebeu, nas últimas décadas, um nome na neurociência: interocepção.

Ela corresponde ao processo pelo qual o cérebro recebe, organiza e interpreta informações vindas do interior do organismo. Batimentos cardíacos, respiração, fome, sede, temperatura corporal, tensão muscular, desconforto gastrointestinal, necessidade de descanso e inúmeras outras sensações fazem parte desse sistema de monitoramento interno.

O neurologista Antonio Damasio descreve que a consciência do próprio corpo constitui uma das bases da mente humana. Antes mesmo de pensarmos racionalmente sobre uma emoção ou um problema, o organismo já produz alterações fisiológicas que o cérebro utiliza para construir a experiência consciente. Em outras palavras, sentir o corpo não é apenas uma consequência da vida. É parte fundamental da forma como pensamos, decidimos e existimos.

Durante muito tempo, acreditou-se que essas sensações tinham pouca importância clínica. Hoje, essa visão mudou.

Pesquisas recentes mostram que alterações na percepção interoceptiva estão associadas a diversas condições de saúde, incluindo ansiedade, depressão, dor crônica, transtornos alimentares e estresse persistente. Não significa que uma percepção corporal reduzida cause essas doenças de maneira isolada, mas ela parece desempenhar um papel importante na forma como elas se desenvolvem, são percebidas e evoluem.

Talvez o exemplo mais simples seja o esgotamento. Raramente alguém acorda, de um dia para o outro, em burnout.

Na maioria das vezes, o organismo envia inúmeros sinais antes disso acontecer. O sono deixa de ser reparador. A tensão muscular torna-se constante. A respiração fica mais superficial. O intestino muda seu funcionamento. A fadiga aparece mesmo após o descanso. Pequenas alterações emocionais começam a surgir.

O problema é que muitos desses sinais passam despercebidos ou são interpretados apenas como inconvenientes passageiros.

Seguimos trabalhando, produzindo, resolvendo problemas e tentando silenciar os sintomas até que o próprio corpo imponha um limite.

É curioso perceber que diferentes medicinas tradicionais, desenvolvidas em épocas e culturas distintas, sempre atribuíram grande valor à observação dessas mudanças sutis. Antes da existência de exames laboratoriais ou métodos sofisticados de imagem, a atenção aos sinais internos fazia parte da compreensão do processo saúde-doença.

Evidentemente, os modelos explicativos eram diferentes dos utilizados pela ciência contemporânea. Mas existe um ponto de convergência interessante.

Enquanto a neurociência atual investiga como o cérebro interpreta informações provenientes do interior do organismo, as medicinas tradicionais já valorizavam, há séculos, a percepção dessas alterações como parte essencial do cuidado.

O que chama atenção é que ambas reconhecem algo semelhante: o corpo costuma manifestar alterações antes que muitos problemas se tornem plenamente evidentes.

Estamos aprendendo a confiar cada vez mais nos dispositivos externos para nos dizer como estamos, enquanto diminuímos a atenção dedicada às informações produzidas pelo próprio organismo.

Esperamos o relógio indicar estresse, o exame confirmar o cansaço, o diagnóstico explicar aquilo que, muitas vezes, o corpo já vinha comunicando havia semanas ou meses.

Naturalmente, exames e tecnologias são indispensáveis e transformaram profundamente a medicina. A questão não é substituí-los pela percepção subjetiva, mas reconhecer que essas duas formas de informação podem caminhar juntas.

A ciência começa a demonstrar que perceber melhor o próprio corpo não é apenas uma habilidade curiosa. Trata-se de uma competência relacionada à autorregulação, ao reconhecimento precoce de alterações fisiológicas e à forma como lidamos com emoções, dor e saúde mental.

Talvez essa seja uma das reflexões mais importantes produzidas pelas pesquisas sobre interocepção.

Cuidar da saúde não depende apenas de acompanhar indicadores biológicos.

Depende também da capacidade de perceber quando o organismo começa a mudar. Antes que qualquer exame revele uma alteração, o corpo frequentemente já enviou sinais que não fomos capazes de reconhecer.

A ciência continua desenvolvendo formas cada vez mais precisas de compreender o organismo. O desafio é não perder a capacidade de perceber aquilo que ele comunica todos os dias.

Em meio a tantos dados, notificações e exames, corremos o risco de esquecer nossa primeira fonte de informação sobre a saúde: o próprio corpo..

Referências

DAMÁSIO A. Sentir e Saber: As Origens da Consciência. São Paulo: Companhia das Letras.

Craig AD. How do you feel? Interoception: the sense of the physiological condition of the body. Nat Rev Neurosci. 2002.

Khalsa SS et al. Interoception and Mental Health: A Roadmap. Biol Psychiatry Cogn Neurosci Neuroimaging. 2018.

Wang RL, Chang RB. The Coding Logic of Interoception. Annu Rev Physiol. 2024.

Jenkinson PM, Fotopoulou A, Ibañez A. Interoception in anxiety, depression, and psychosis: a review. eClinicalMedicine. 2024.

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