Por que ainda temos tanta dificuldade de reconhecer e acolher o outro enquanto há tempo?
Existe um comportamento social que sempre me provoca uma reflexão: a valorização depois da morte.
Quando alguém parte, chegam as homenagens. As flores. As fotografias. Os textos emocionados. De repente, todos têm alguma lembrança bonita, alguma admiração para demonstrar, alguma palavra que gostariam de ter dito.
E eu sempre me pergunto: onde estava tudo isso enquanto aquela pessoa estava viva?
Recentemente, acompanhamos a morte de um cantor conhecido e um fenômeno que chama a atenção: após sua partida, suas redes sociais receberam cerca de um milhão de novos seguidores.
Um milhão.
É impossível olhar para um número como esse sem refletir.
Não sabemos o que esse artista sentia em relação ao reconhecimento que recebia em vida, e não seria correto falar por ele. Mas podemos olhar para o nosso próprio comportamento enquanto sociedade.
Por que tantas vezes precisamos que alguém morra para finalmente prestar atenção em sua existência?
Quantas vezes deixamos de apoiar o trabalho de alguém enquanto essa pessoa está aqui? Não compartilhamos. Não divulgamos. Não indicamos. Não compramos. Não elogiamos. Às vezes acompanhamos silenciosamente durante anos, mas nunca fazemos questão de demonstrar que aquilo que ela produz tem valor.
Então essa pessoa morre.
E aquilo que não compartilhávamos passa a ser compartilhado. A música que não ouvíamos passa a tocar novamente. A fotografia que nunca curtimos aparece em nossas redes. Pessoas que sequer acompanhavam aquele trabalho passam a segui-lo.
É claro que parte disso nasce de uma comoção verdadeira. A morte desperta lembranças, aproxima pessoas de uma obra e faz com que muitos descubram um artista que talvez não conhecessem.
Mas existe também a curiosidade.
Queremos saber como aconteceu. Queremos ver a última publicação. Procuramos detalhes. Acompanhamos a repercussão.
E isso diz muito sobre nós.
Talvez não seja apenas sobre aquele cantor.
É sobre quantas pessoas passam a vida tentando construir alguma coisa, desejando que seu trabalho seja visto, reconhecido ou simplesmente valorizado, enquanto nós continuamos adiando o gesto de apoiar.
Depois que alguém morre, uma homenagem pode preservar sua memória. Mas já não pode devolver a essa pessoa a experiência de ter sido reconhecida em vida.
A morte, muitas vezes, consegue despertar uma atenção que a vida inteira daquela pessoa não conseguiu.
E essa mesma contradição aparece fora das redes sociais.
Há pouco tempo, vivi uma situação que tornou essa reflexão ainda mais forte.
Estive no velório de uma senhora e, ao chegar, fiquei impressionada com a quantidade de coroas de flores. Eram muitas. Grandes, lindíssimas.
Durante o velório, conversando com um familiar, ouvi:
“Ela não estava muito bem da cabeça. Teve depressão durante uns 40 anos.”
Aquela expressão ficou comigo.
O que significa dizer que alguém “não está bem da cabeça”?
Estamos falando de uma mulher que conviveu por décadas com a depressão. Segundo o próprio familiar, em determinado momento ela enfrentou uma crise grave e precisou ser levada ao hospital. Pelo que me foi relatado, não havia um acompanhamento psiquiátrico contínuo.
Olhei novamente para todas aquelas flores e pensei:
talvez aquela mulher nunca tenha recebido, em vida, tantas flores quanto recebeu depois de morrer.
E não estou falando apenas de flores.
Talvez tenham faltado algumas ligações. Algumas visitas. Algumas perguntas feitas sem julgamento. Talvez tenha faltado compreender que depressão não é simplesmente “não estar bem da cabeça”.
Não conheço toda a história daquela mulher e não seria ético nem responsável afirmar o que poderia ter sido diferente em sua trajetória. Tampouco se trata de responsabilizar uma família.
A questão é muito maior.
Por que ainda sabemos homenagear melhor os mortos do que acolher os vivos?
Se uma pessoa enfrenta uma doença física grave, geralmente compreendemos que ela precisa de acompanhamento, tratamento e cuidados. Mas quando o adoecimento é psíquico, ainda ouvimos:
“Você precisa reagir.”
“Tem que pensar positivo.”
“Precisa ocupar a cabeça.”
“É falta do que fazer.”
“Ela não está bem da cabeça.”
A dor psíquica tem uma particularidade cruel: muitas vezes ela não aparece no corpo de uma forma que os outros consigam enxergar. Não está em um exame de imagem. Não exige necessariamente uma faixa, uma cadeira de rodas ou uma cicatriz visível.
Mas isso não significa que doa menos.
Depressão não é fraqueza, preguiça, ausência de fé ou falta de força de vontade. É uma condição de saúde que pode ser grave e incapacitante e que merece acompanhamento adequado.
E existe outro ponto fundamental: acolhimento e tratamento não são concorrentes.
Amor não substitui acompanhamento profissional quando ele é necessário.
Psicoterapia não substitui medicação quando há indicação médica.
Da mesma forma, medicamento não substitui escuta, vínculos, presença e cuidado.
Saúde mental também é saúde.
Talvez precisemos aprender a entregar algumas flores antes do velório.
E novamente: não estou falando necessariamente de flores.
Estou falando daquela ligação que adiamos.
Da visita que nunca fazemos.
Do abraço que economizamos.
Do elogio que sentimos, mas não fazemos.
Do trabalho de alguém que admiramos, mas nunca compartilhamos.
Da pergunta “como você realmente está?” feita não por educação, mas acompanhada da disposição de permanecer e ouvir a resposta.
Precisamos levar a sério quando alguém começa a se afastar, perde o interesse pelas coisas que antes lhe davam prazer, demonstra desesperança ou verbaliza que não consegue mais suportar aquilo que está vivendo.
Isso não significa que conseguiremos impedir todas as perdas.
Também não podemos transformar familiares e amigos em culpados pelo adoecimento ou pela morte de alguém. O sofrimento psíquico é complexo, e nenhuma história humana pode ser explicada por uma única causa.
Mas podemos aprender a estar mais presentes enquanto ainda existe presença.
Existe algo profundamente contraditório em uma sociedade que, muitas vezes, oferece silêncio para quem sofre e discursos emocionados quando essa pessoa já não pode mais ouvi-los.
Que compra coroas de flores, mas economiza acolhimento.
Que compartilha depois da morte aquilo que poderia ter apoiado em vida.
Que escreve “você fará muita falta”, mas talvez tenha passado anos sem perguntar:
“Você precisa de mim?”
Depois da morte, o luto pode trazer perguntas difíceis.
“Será que eu poderia ter feito alguma coisa?”
“Por que eu não percebi?”
“Por que não procurei mais?”
“Por que não disse que amava?”
Nem sempre haverá respostas.
E talvez seja justamente por isso que precisamos falar mais sobre presença enquanto ainda há tempo.
Não espere o velório para reconhecer o valor de alguém.
Não espere uma ausência definitiva para transformar carinho em palavras.
Não espere a morte para seguir, compartilhar, elogiar ou reconhecer aquilo que você já admirava em vida.
Não espere uma fotografia cercada de flores para dizer aquilo que ainda pode ser dito olhando nos olhos.
Flores são bonitas.
Homenagens também.
Mas, quando possível, que algumas delas cheguem em vida.
Porque os mortos recebem nossas flores.
São os vivos que ainda podem sentir o nosso abraço.












