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O custo invisível de manter a tecnologia presa ao passado – por Vitor Genaro

Quando uma indústria avalia a modernização de seu software de gestão, o investimento necessário para realizar a mudança costuma ocupar o centro da discussão. Licenças, implementação, migração de dados, integrações, treinamento e mobilização das equipes entram naturalmente no orçamento. É uma análise necessária, mas não suficiente para dimensionar o impacto da decisão.

Chama a atenção o fato de existir um custo menos evidente associado à permanência de estruturas tecnológicas antigas que se distribui pela operação em forma de manutenção, retrabalho, controles paralelos, integrações complexas e horas das equipes dedicadas a contornar limitações do ambiente existente.

Um sistema legado pode continuar funcionando por muitos anos. Pode registrar pedidos, movimentações financeiras, compras, estoques e produção sem apresentar uma falha crítica. O funcionamento, entretanto, não significa necessariamente que a estrutura tecnológica continue adequada às necessidades do negócio.

Esse aspecto ganha importância em um cenário de crescimento industrial mais moderado. Segundo o IBGE, a produção industrial brasileira cresceu 0,6% em 2025, depois de avançar 3,1% em 2024. Em maio de 2026, o acumulado do ano apresentava alta de 1,4%, enquanto a produção industrial variou apenas 0,2% na comparação com maio do ano anterior. Neste ambiente de expansão mais contida, produtividade e eficiência passam a ter peso ainda maior na competitividade.

É por isso que a indústria vem direcionando esforços para melhorar seus processos. A pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que 61% das indústrias brasileiras realizaram atividades de inovação nos três anos anteriores. Entre essas empresas, 69% concentraram os esforços na melhoria dos processos produtivos. O aumento de produtividade foi apontado por 38% das empresas como principal resultado alcançado, seguido pelo acesso a novos mercados, com 21%, e pela redução de custos, com 19%.

Esse movimento evidencia uma mudança importante na agenda das empresas. A inovação deixou de estar restrita à adoção de novas tecnologias e passou a envolver também a revisão da forma como os processos são estruturados e executados.

É nesse ponto que a arquitetura dos sistemas de gestão ganha relevância. Ao longo dos anos, empresas incorporam novas operações, ampliam portfólios, realizam aquisições, alteram modelos de negócio e precisam responder a mudanças regulatórias. Para acompanhar esse movimento, o software de gestão, ou ERP, recebe customizações, integrações e adaptações sucessivas.

O que inicialmente resolve uma necessidade específica pode se transformar em uma camada permanente de complexidade. Uma alteração passa a depender de diferentes sistemas, uma integração exige ajustes frequentes e determinadas informações precisam ser conferidas em controles externos. Com o tempo, a operação se torna mais dependente de procedimentos manuais e do conhecimento de profissionais que aprenderam a contornar essas limitações.

Uma empresa com uma arquitetura fragmentada tende a enfrentar mais obstáculos para incorporar uma nova operação, automatizar uma etapa produtiva, integrar uma companhia adquirida ou reorganizar determinado processo. Cada iniciativa pode exigir uma sequência de adaptações antes de produzir resultado.

A tecnologia deixa, nesse cenário, de atuar apenas como infraestrutura para a operação e passa a influenciar diretamente a capacidade de execução do negócio. Por isso, a modernização de um ERP precisa ser tratada como uma revisão da própria operação. A primeira etapa deve ser o entendimento dos processos que realmente diferenciam o negócio e daqueles que permanecem apenas porque foram construídos para compensar limitações do ambiente atual.

Essa distinção é importante porque nem toda customização representa uma vantagem competitiva. Algumas preservam conhecimentos fundamentais para a operação. Outras apenas reproduzem uma forma antiga de executar determinada atividade.

Levar toda essa estrutura para um novo ambiente significa transferir também parte da complexidade acumulada. Modernizar exige justamente o movimento contrário. É necessário simplificar onde for possível, preservar o que gera valor e estabelecer uma base capaz de acompanhar novas mudanças sem depender de adaptações permanentes.

Modelos de operação em nuvem e arquiteturas mais padronizadas podem contribuir para esse processo ao reduzir a dependência de estruturas desenvolvidas exclusivamente para necessidades específicas do passado.

O resultado esperado de uma modernização bem conduzida vai além da substituição de um sistema. Ele pode aparecer na redução do retrabalho, na simplificação dos processos, na maior disponibilidade de informações, na diminuição do esforço de manutenção e na capacidade de implementar mudanças com mais agilidade.

A decisão de modernizar, portanto, precisa considerar os dois lados da equação. De um lado está o investimento necessário para construir uma nova estrutura. Do outro estão os recursos que continuarão sendo consumidos para sustentar uma arquitetura antiga e as oportunidades que podem continuar limitadas por ela.

Quando essa análise é feita de maneira ampla, a modernização do ERP deixa de ser uma decisão exclusivamente tecnológica e passa a ser uma decisão relacionada à produtividade, à eficiência operacional e à capacidade de crescimento da indústria.


*Vitor Genaro é diretor comercial da Ábaco Consulting, consultoria especializada no ecossistema SAP.

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