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A partilha do “botim” – por Ricardo Cavalcanti

Diz a história que os integrantes de uma quadrilha podem permanecer unidos durante a conquista do poder, mas frequentemente se desentendem quando chega a hora da partilha do “botim”. Enquanto existem interesses comuns, preservam-se as aparências, os acordos e as conveniências. Quando é necessário dividir cargos, vantagens, privilégios e influência, surgem as disputas e aparecem as verdadeiras intenções.

Essa realidade já foi observada por grandes pensadores. Em A República, Platão afirma que a injustiça provoca ódio e divisões até mesmo entre homens injustos, tornando-os incapazes de agir em conjunto. Em outras palavras, até uma associação de criminosos necessita de alguma regra interna para permanecer unida; quando essa regra é quebrada, o grupo se desfaz.

Aristóteles, no Livro V de Política, ensina que as disputas políticas geralmente nascem da busca por vantagens, honrarias e poder. Aqueles que se consideram prejudicados na distribuição dos benefícios rebelam-se contra os que receberam uma parcela maior. É justamente na divisão do “botim” que a união construída por conveniência começa a apresentar suas rachaduras.

Santo Agostinho, em A Cidade de Deus, fez uma comparação ainda mais contundente: sem justiça, os reinos se assemelham a grandes grupos de ladrões. Segundo ele, até os bandos criminosos possuem uma autoridade, um acordo entre seus integrantes e regras para a divisão do “botim”. Quando esses acordos deixam de ser respeitados, desaparece a razão que mantinha o grupo unido.

O economista e cientista político Mancur Olson também analisou esse fenômeno ao formular a teoria do “bandido estacionário”. Para Olson, grupos movidos por interesses próprios podem organizar-se e manter certa estabilidade enquanto todos recebem benefícios. Entretanto, quando o poder deixa de satisfazer seus integrantes ou quando alguns desejam uma parcela maior do “botim”, aumentam as possibilidades de conflito e ruptura.

Sendo assim, uma das esperanças do eleitor brasileiro é que, diante da ausência de uma liderança nacional capaz de apresentar um novo caminho, os atuais detentores do poder acabem se dividindo por seus próprios interesses. Alguns observadores da realidade política não enxergam, em curto prazo, outra força capaz de modificar o cenário brasileiro.

Resta saber se essa ruptura realmente acontecerá. Os interesses pessoais e partidários falarão mais alto do que a conveniência de permanecerem unidos? Ou as divergências serão novamente esquecidas para garantir a continuidade no poder?

O Brasil atravessa um período preocupante, perdendo posições e oportunidades em diferentes áreas. A economia enfrenta dificuldades, os serviços públicos deixam a desejar, a insegurança preocupa e a confiança nas instituições diminui. Enquanto isso, parte da classe política parece mais interessada na ocupação de cargos e na preservação de privilégios do que na solução dos problemas nacionais.

Será que a disputa pela partilha do “botim” provocará o rompimento daqueles que hoje se mantêm unidos pelo poder? E será essa divisão suficiente para livrar o Brasil da trajetória descendente que atualmente enfrenta?

A resposta não dependerá somente das brigas entre os poderosos. Uma democracia não pode depositar todas as suas esperanças na divisão dos governantes. A verdadeira mudança deverá nascer da participação popular, da fiscalização permanente e, principalmente, do voto consciente e responsável.

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