É importante diferenciar esses dois conceitos.
A violência doméstica é aquela que acontece no ambiente familiar ou no contexto de relações de convivência e pode atingir crianças, idosos, homens e mulheres. Ela pode se manifestar de diferentes formas, como violência física, psicológica, patrimonial, sexual ou moral.
Já a violência contra a mulher é uma violência específica, direcionada à mulher pelo fato de ser mulher ou relacionada à sua condição de mulher. Ela pode acontecer dentro de casa, em um relacionamento, no ambiente familiar, no trabalho, na rua ou em outros espaços.
Quando falamos em violência contra a mulher, ainda estamos diante de uma realidade tão presente que exige de toda a sociedade muito mais do que campanhas de um mês: exige responsabilidade, posicionamento e ação todos os dias.
A violência não começa com um soco.
Ela começa antes, de um jeito que muitas vezes passa despercebido ou é minimizado. Começa com um grito, uma ameaça, um copo arremessado contra a parede, um soco na parede ao lado de quem se ama. Começa com humilhações ditas “de brincadeira”, com controle disfarçado de cuidado, com intimidação silenciosa. Esses são sinais de um comportamento abusivo. E quando são ignorados, por quem sofre, por quem vê de fora ou por quem finge não ver, a violência tende a se intensificar.
Existe também uma responsabilidade que precisa ser discutida dentro das famílias.
Quando um pai ou uma mãe sabe que o filho agride uma mulher e escolhe se omitir, não denunciar, não buscar ajuda, olhar para o outro lado, essa omissão também sustenta o ciclo da violência. Proteger um filho não pode significar proteger seus atos violentos. Amor de verdade também responsabiliza. O agressor precisa ser confrontado com seus atos e encaminhado para tratamento, não encoberto.
Toda agressão física precisa ser levada a sério, porque a violência escala e, em casos extremos, termina em homicídio e feminicídio.
E precisamos parar de perguntar à vítima: “Por que você não vai embora?”
Essa pergunta, mesmo feita com boa intenção, pode pesar como um julgamento. Porque sair nem sempre é simples. Existe apego emocional, medo, vergonha, dependência financeira, ameaças, isolamento e, muitas vezes, a esperança sincera de que aquela pessoa mude. Existe também o peso do julgamento social: a vítima é frequentemente questionada, criticada e, de alguma forma, responsabilizada pela própria violência que sofreu.
E precisamos falar sobre uma realidade que ainda é pouco discutida: quantas mulheres de classe média e classe alta participam de campanhas contra a violência contra a mulher, fazem palestras, levantam essa bandeira, orientam outras mulheres e, dentro de suas próprias casas, vivem relacionamentos abusivos?
Não existe contradição em falar sobre violência e, ao mesmo tempo, ser vítima dela. Conhecer o assunto não torna ninguém imune a um relacionamento abusivo. Muitas vezes, justamente por conhecerem o tema, essas mulheres conseguem identificar a violência na vida dos outros, mas têm dificuldade de reconhecer ou admitir aquilo que acontece dentro da própria casa.
Para algumas, a imagem que apresentam para a sociedade pode se tornar um mecanismo de fuga. Elas falam sobre força, independência, autoestima e enfrentamento, enquanto, na intimidade, vivem medo, controle, humilhação, ameaças ou dependência emocional.
É possível ensinar outras mulheres a reconhecer a violência e, ainda assim, não conseguir romper a própria relação abusiva.
Porque uma coisa é falar sobre violência. Outra é vivê-la.
E quando existe uma posição social, uma profissão, uma família, um sobrenome, uma reputação ou uma imagem a preservar, admitir que se está vivendo uma relação abusiva pode ser ainda mais difícil.
Por isso, não podemos imaginar que a violência contra a mulher acontece apenas em determinadas classes sociais. Ela atravessa diferentes realidades econômicas, culturais e profissionais.
A mulher que aparece forte para todos também pode estar sofrendo em silêncio.
A mulher que orienta outras mulheres também pode precisar de ajuda.
A mulher que participa de uma campanha contra a violência também pode estar tentando encontrar forças para enfrentar aquilo que vive dentro da própria casa.
E é justamente por isso que precisamos olhar para além da aparência.
Nem sempre aquilo que uma pessoa demonstra para o mundo corresponde ao que ela vive quando ninguém está olhando.
O enfrentamento da violência começa também quando conseguimos enxergar essa realidade sem julgamento, sem preconceito e sem a ideia de que determinadas mulheres estariam protegidas pela classe social, pelo conhecimento ou pela profissão.
Violência não escolhe classe social.
E sofrimento não deixa de existir porque, por fora, a vida parece perfeita.
A vítima precisa de acolhimento, proteção e apoio. Não de julgamento.
O agressor precisa ser responsabilizado e buscar tratamento.
Precisamos cuidar do que dizemos.
Aprender a ouvir sem culpar. Acolher sem julgar. E agir diante dos sinais de violência, mesmo quando é desconfortável.
O enfrentamento à violência doméstica e à violência contra a mulher não é responsabilidade só de quem sofre. É responsabilidade da família, dos amigos, dos profissionais, das instituições, de todos nós.
Não podemos esperar que a violência chegue ao extremo para reconhecer que ela já estava acontecendo bem antes.
Que as campanhas não sejam apenas palavras. Que sejam um chamado real: para enxergarmos os sinais, interrompermos o ciclo e protegermos vidas.
Violência não é problema de casal. Violência é responsabilidade de todos nós.
Bruna Gayoso












