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Até onde vai o respeito quando o outro pensa diferente? – por Bruna Gayoso

Toda eleição deixa um rastro. E não falo só do resultado.

Falo do grupo da família que ficou em silêncio depois de uma discussão. Do amigo de infância que você deixou de seguir. Do colega com quem agora só se fala o necessário. Do almoço de domingo em que alguém levantou da mesa antes da sobremesa.

No Brasil, faz alguns anos que a política deixou de ser uma conversa sobre o país e virou uma linha que divide as pessoas. Direita de um lado, esquerda do outro. No meio, um abismo onde cada vez menos gente se arrisca a pisar.

Quando o outro vira rótulo

Repare em como a gente passou a se referir a quem pensa diferente. Ninguém fala mais de “uma pessoa que votou em outro candidato”. Fala de gado, comunista, fascista, isentão, bolsominion, petralha. A lista é longa, e os dois lados ajudam a aumentá-la.

O apelido parece inofensivo, quase uma piada. Mas ele faz um trabalho silencioso: transforma uma pessoa inteira numa caricatura. E é muito mais fácil desprezar uma caricatura do que alguém com nome, história e motivos.

Quem vota à direita não é, automaticamente, alguém sem coração. Quem vota à esquerda não é, automaticamente, alguém que quer destruir o país. Existe gente honesta, preocupada e cheia de dúvidas dos dois lados. Existe gente agressiva dos dois lados também. O voto não diz quem é quem.

A vitória que vira humilhação, a derrota que vira culpa

Depois de cada eleição, o roteiro se repete. Quem ganha comemora provocando quem perdeu. Quem perde passa a culpar cada eleitor adversário por tudo de ruim que vier pela frente.

Tem gente que comemora compartilhando o choro alheio. Tem gente que deseja que o vizinho “sofra para aprender”. Venha de onde vier, é a mesma crueldade. Só muda a cor da camiseta.

As urnas encerram uma eleição. A hostilidade fica com a gente, e só a gente pode encerrá-la.

O respeito que só vale quando concordam comigo

É fácil exigir respeito enquanto se desrespeita. Fácil defender a liberdade de expressão quando a opinião expressa é a nossa. Fácil falar de democracia quando o resultado nos agrada.

O teste vem quando somos contrariados. É ali que se descobre se aqueles princípios eram convicção ou só conveniência.

Tem quem compartilhe mensagem sobre amor ao próximo de manhã e, à tarde, chame o tio de idiota nos comentários. Tem quem fale de tolerância e não aguente cinco minutos à mesa com o cunhado que vota diferente. Essa contradição não pertence a um lado só. Ela é de todos nós.

O que acontece dentro de nós

No consultório, é comum ouvir pessoas que se assustam com a própria raiva quando o assunto é política. Dizem que não são assim. E, mesmo assim, foram.

A psicanálise ajuda a entender um pouco disso. Freud percebeu que as brigas mais duras costumam acontecer entre os próximos: irmãos, vizinhos, colegas. Quanto mais o outro se parece comigo, mais me incomoda que ele escolha um caminho diferente. É como se a escolha dele colocasse a minha em dúvida.

Há também um mecanismo muito humano, que todos usamos em algum grau: jogar no outro aquilo que não suportamos ver em nós. Para quem está de um lado, toda a intolerância mora do outro. Isso alivia. Mas custa caro, porque, se o problema é sempre o outro, eu nunca preciso me olhar.

O fanatismo, à direita ou à esquerda, oferece exatamente esse conforto. Certezas absolutas, um inimigo bem definido, nenhuma dúvida para atravessar. O preço é a capacidade de pensar e, muitas vezes, a de continuar amando quem está perto.

Discordar é um direito. Humilhar, não.

O meu direito termina onde começa o do outro.

Eu posso defender o que acredito. Posso criticar um governo, questionar propostas, cobrar quem foi eleito, dizer em voz alta que discordo. Isso é a democracia funcionando. O que eu não posso é usar essa liberdade para ameaçar, constranger ou humilhar alguém.

Meu voto não me faz moralmente superior. Ganhar não autoriza ninguém a tratar o outro como inimigo. Perder também não.

Respeitar uma pessoa não significa concordar com ela. Dá para discutir com firmeza, apontar erros, cobrar responsabilidade, e fazer tudo isso sem crueldade.

O preço que a gente paga

Essa briga não fica só na tela. Ela entra em casa.

Tem família que não se reúne mais no Natal. Tem pai e filho que não se falam desde a última eleição. Tem gente que sente o coração acelerar só de abrir o celular em época de campanha, que dorme mal, que se sente sozinha porque não pode ser sincera em lugar nenhum.

Isso também é saúde mental, e pouca gente fala disso.

Perdemos vínculos que levaram anos para ser construídos por causa de uma discussão que, daqui a quatro anos, vai se repetir com outros nomes.

Antes de comentar

Vale uma pausa antes de escrever aquele comentário. Uma pergunta só: eu quero conversar ou quero descarregar a minha raiva em alguém?

Do outro lado da tela tem uma pessoa. Ela lê, sente, vai dormir pensando naquilo. E, muitas vezes, é alguém que a gente ama.

No fim, é uma escolha

Respeito não se prova com uma frase bonita no feed. Ele aparece naquele momento em que a gente poderia humilhar alguém por causa do voto e escolhe conversar.

Se o meu respeito só existe enquanto o outro concorda comigo, talvez eu precise repensar o que venho chamando de respeito.

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