Estamos protegendo demais nossos jovens dos desafios que os ajudam a amadurecer?
Imagine um jovem que precisa apresentar um trabalho em inglês para colegas de diferentes países ou resolver sozinho um problema simples do dia a dia em uma cidade onde nunca esteve antes. Situações como essas fazem parte da rotina de quem vive um intercâmbio e, embora provoquem insegurança no início, são justamente elas que ajudam a desenvolver autonomia, confiança e capacidade de adaptação.
Vivemos hoje uma contradição silenciosa. Nunca se falou tanto sobre saúde mental, acolhimento e proteção e, ao mesmo tempo, nunca se viu uma geração tão ansiosa diante do inesperado. Parte dessa tensão nasce de um equívoco comum: muitas vezes confundimos cuidado com ausência de desafio. Na tentativa de proteger jovens de qualquer desconforto, acabamos eliminando justamente as vivências que o ajudam a construir autonomia, resiliência e maturidade emocional.
É nesse ponto que gosto de falar sobre um conceito simples, mas muito importante para o desenvolvimento humano: o desconforto seguro.
Desconforto seguro não significa expor alguém a riscos ou dificuldades sem apoio. Pelo contrário. Trata-se de enfrentar situações novas, e às vezes desafiadoras, sabendo que existe estrutura, orientação e suporte para lidar com elas. É sair da zona de conforto, mas sem estar sozinho.
No intercâmbio, esse tipo de vivência aparece de forma muito concreta no dia a dia. Um estudante pode sentir insegurança ao participar de uma discussão em sala com colegas de diferentes nacionalidades, por exemplo. No início, é comum ter receio de cometer erros no idioma ou de não conseguir se expressar com clareza. Mas, ao enfrentar essas situações, ele descobre que consegue se comunicar, aprende com a vivência e ganha confiança para se posicionar.
Outro exemplo acontece fora da sala de aula. Muitos jovens vivem, pela primeira vez, responsabilidades simples da vida adulta, como organizar a própria rotina, administrar o orçamento do mês ou encontrar soluções para pequenas dificuldades do cotidiano. Pode ser algo tão básico quanto pegar o transporte público em uma cidade desconhecida ou resolver um problema no supermercado ou no banco. São situações comuns, mas que fortalecem a independência e a capacidade de tomar decisões.
É justamente essa soma de pequenas vivências que gera transformação real.
Quando o intercâmbio é bem estruturado, com preparação antes da viagem, escolha cuidadosa das instituições e acompanhamento durante toda a jornada, o desafio deixa de ser um problema e passa a ser parte do aprendizado. O desconforto deixa de ser paralisante e se transforma em crescimento. É nesse processo que os jovens desenvolvem algo que nenhuma aula teórica consegue ensinar completamente: a capacidade de lidar com o inesperado.
Ao aprender a se adaptar a uma nova cultura, conviver com pessoas de diferentes origens e superar pequenas frustrações do cotidiano, eles constroem habilidades cada vez mais valorizadas no mundo atual, como adaptabilidade, empatia, comunicação assertiva, resiliência e inteligência emocional.
O chamado choque cultural, muitas vezes visto como um obstáculo, também faz parte desse aprendizado. Ele acontece quando percebemos que outras pessoas pensam, se comportam e vivem de maneira diferente da nossa. Quando bem acompanhado, esse contato amplia a visão de mundo e fortalece a capacidade de conviver com a diversidade.
Em um cenário global cada vez mais dinâmico, profissionais e líderes não serão avaliados apenas pelo conhecimento técnico, mas também pela forma como lidam com mudanças, incertezas e diferentes perspectivas. E essa habilidade não nasce do conforto absoluto. Ela é construída a partir da vivência adquirida.
Intercâmbio estruturado não é apenas uma viagem ou um período de estudos no exterior. É uma jornada de desenvolvimento pessoal. Ao viver em outro país, o jovem aprende a tomar decisões, lidar com desafios e confiar mais na própria capacidade de adaptação. Ao longo desse processo, as mudanças aparecem de forma natural: mais responsabilidade, maior autoconfiança, mais empatia e uma relação mais madura com frustrações e imprevistos. Talvez um dos maiores desafios da nossa geração seja aceitar que proteger demais também pode limitar o crescimento.
Em um mundo cada vez mais imprevisível, preparar jovens não significa eliminar todos os obstáculos do caminho, mas ajudá-los a desenvolver confiança para atravessá-los.
O desconforto certo, no momento certo, não enfraquece, ele forma adultos mais preparados para a vida.

Carla Gama é Diretora Geral da Experimento desde 2023. Com mais de 30 anos de experiência em gestão, estratégia e desenvolvimento de pessoas, construiu uma trajetória sólida em grandes organizações como Vale, Grupo SOMA, Hinode Group e CVC Corp, onde atuou como diretora executiva de Gente e Gestão entre 2017 e 2019. Também esteve na própria Experimento entre 2019 e 2020, como Diretora Geral. Graduada em Matemática e Informática, com mestrado em Engenharia de Sistemas, possui especializações executivas em instituições como MIT, IMD, Harvard, Wharton School e Saint Paul. Desde 2019, atua também como conselheira independente da Time for Fun e trusted advisor de diversas empresas.












