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Michelle se transformou em cabo eleitoral de Lula? – por Reinaldo Polito

Talvez, sem se dar conta, Michelle Bolsonaro tenha servido como cortina de fumaça para o caso que envolveu as buscas e apreensões feitas pela Polícia Federal em endereços ligados a Jaques Wagner. Enquanto os governistas batiam cabeça procurando alguma saída, surgiu Dona Michelle, esposa do ex-presidente Jair Bolsonaro, para atrapalhar a alegria da oposição. Em pronunciamento em dois vídeos que, somados, duraram entre 25 e 26 minutos, ela mostrou com todas as letras a desarmonia que existe no clã bolsonarista.

Será que foi ciúme ou mágoa?

Embora muitos julguem que a ex-primeira-dama se vingou por não ter sido a escolhida pelo marido para concorrer à Presidência, ela afirma que se sentiu desconsiderada pelo zero um. Disse ter sofrido desrespeito, humilhação e maus-tratos por parte de Flávio durante uma conversa telefônica que mantiveram para falar das divergências partidárias no Ceará.

Essa briga familiar, que dava a impressão de não passar de fofoca dos governistas, mostrou-se verdadeira. A mágoa é profunda. Esse fogo amigo poderá ser utilizado pelos apoiadores do presidente para alavancar a campanha de Lula. Afinal, se o candidato do PL não consegue administrar nem uma divergência intramuros, como pretende governar um país com uma complexidade que exige experiência e liderança?

Uma história de confrontos

O conflito já vem de longa data. O próprio ex-presidente revelou durante entrevista para o UOL, no início de 2025, que o relacionamento entre seus quatro filhos e sua esposa era marcado por altos e baixos. No início, as desavenças ocorriam no ambiente familiar, mas, com o início dos acertos para as eleições de 2026, ganharam as ruas de forma mais contundente.

Em 2022, chamou atenção o fato de Michelle e Jair Bolsonaro não se seguirem nas redes sociais. É sabido que o perfil do marido era administrado por Carlos. No final de 2025, o caldo entornou de vez. Michelle bateu o pé para que não houvesse articulações no Ceará com o objetivo de aproximar o PL de Ciro Gomes. Como essa iniciativa contrariava as decisões do próprio Jair, Flávio não poupou críticas. Disse que a madrasta era autoritária por tomar a frente daquele episódio.

Amnésia e bananinha

Pouco depois, no início de 2026, a tensão voltou a aparecer. O partido lançou Carlos Bolsonaro como pré-candidato ao Senado por Santa Catarina, mas Michelle preferiu apoiar a deputada Caroline de Toni. Explicou sua posição com uma frase reveladora: “Já perdoei, mas não quero conviver”.

Vieram outros sinais de desarranjo. Eduardo criticou Michelle e Nikolas Ferreira por não apoiarem de forma adequada a pré-candidatura de Flávio. Suas palavras foram duras. Chegou a dizer que “sofriam de amnésia” por se esquecerem de quem os havia projetado nacionalmente. No dia seguinte, Michelle deu o troco. Divulgou em suas redes sociais um vídeo em que aparecia fritando uma banana. Disseram que era uma alusão irônica ao apelido de “bananinha” dado a Eduardo.

Flávio deu um passo atrás

Todo esse enredo culminou com o telefonema e o posterior vídeo que explodiu como uma bomba no noticiário político desta semana. Houve revolta de todos os lados. Aparentemente, ninguém queria dar o braço a torcer. Mas em política é preciso almejar sempre um fim maior.

Por isso, diante da repercussão, Flávio deixou de lado a ironia que havia usado num primeiro momento e se desculpou. Talvez por temer prejuízos entre as eleitoras, publicou uma nota e postou um vídeo pedindo desculpas a Michelle. Ainda que tenha sido uma atitude protocolar, serviu para acalmar os ânimos.

Michelle puxou o freio

Michelle, por sua vez, depois de observar a extensão da sua iniciativa, que dividia a direita, publicou nova mensagem negando a existência de competição ou briga entre eles. Afirmou que iriam trabalhar juntos para derrotar o governo Lula.

Assim funciona a política. Uma verdadeira arte de engolir sapos. Se Alckmin aceitou ser o vice de Lula depois de dizer que o petista queria voltar à cena do crime, por que não poderia também existir reconciliação nesse caso? Ainda que tímido, o primeiro passo foi dado.

E o caso de Jaques Wagner? Bem, esse ainda está assombrando por aí. Restou a saída da posição que ocupava. Com isso, o governo tenta blindar Lula. Se vai dar resultado ou não, tudo dependerá do que vier nos próximos dias. Encrenca é o que não falta. Ah, e estamos só em pré-campanha. Imagine só o que acontecerá quando a luta começar para valer.

Reinaldo Polito é Mestre em Ciências da Comunicação e professor de oratória nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. Presidente Emérito da Academia Paulista de Educação. Escreveu 34 livros com mais de 1,5 milhão de exemplares vendidos em 39 países. Siga no Instagram @polito, pelo facebook.com/reinaldopolito ou pergunte no contatos@polito.com.br

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