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Por que os eleitores dizem querer a terceira via, mas não votam nela? – por Reinaldo Polito

É comum ouvir reclamações sobre a polarização política no país. Muita gente afirma que gostaria de escapar dos extremos representados pela esquerda e pela direita. O curioso é que, quando chega a hora de escolher, quase sempre abandona as alternativas e se refugia justamente em um dos dois polos.

As pesquisas mais recentes mostram essa contradição. Lula e Flávio Bolsonaro somam, juntos, de 72%, segundo o Datafolha, a 80,7%, de acordo com a AtlasIntel/Bloomberg. Sobra muito pouco para os demais candidatos, ainda que alguns deles tenham boa avaliação e experiência administrativa.

A força que não atravessa as fronteiras

Caiado e Zema são exemplos. Ambos governaram estados importantes e alcançaram índices elevados de aprovação. Caiado chegou a impressionantes 87% em Goiás. Zema, embora mais desgastado ao final do segundo mandato, registrou 52% em Minas Gerais.

Na corrida presidencial, entretanto, esse desempenho não se repete. Os dois patinam entre 3% e 5%. Como estratégia de campanha, atacam tanto Flávio quanto Lula, mas não conseguem transformar a visibilidade regional em força nacional. Funcionam como terceira via no sentido eleitoral, por estarem fora do confronto entre lulismo e bolsonarismo, embora não representem propriamente uma posição de centro.

O exemplo de Alckmin

A história eleitoral brasileira oferece casos curiosos. Geraldo Alckmin, por exemplo, sempre foi considerado um político bom de voto. Em 2014, ao disputar a reeleição para o governo de São Paulo, venceu em 644 dos 645 municípios do estado. Perdeu apenas em Hortolândia, forte reduto petista, e obteve mais de 12,2 milhões de votos.

Quatro anos depois, quando seu retrospecto parecia credenciá-lo para uma candidatura presidencial competitiva, veio a decepção. Percebido como um nome moderado, Alckmin terminou apenas em quarto lugar, com 4,76% dos votos válidos. Enquanto foi visto como adversário inequívoco do PT, teve enorme força em São Paulo. Quando perdeu nitidez como oposicionista, grande parte do eleitorado antipetista preferiu Jair Bolsonaro. O fato de hoje ser vice de Lula reforça a impressão de que a distância entre ambos era menor do que seus antigos eleitores imaginavam.

O medo fala mais alto

Talvez esteja aí a explicação para a aparente incoerência. Uma parcela expressiva do eleitorado escolhe menos pelo entusiasmo com um candidato que pelo desejo de impedir a vitória do outro. Pode até desejar uma alternativa à polarização, mas, diante do risco de ver o adversário vencer, procura abrigo no polo que considera mais competitivo.

A polarização não é exclusividade brasileira. Diversas eleições recentes em países democráticos foram decididas por resultados apertados. Nos Estados Unidos, Donald Trump superou Kamala Harris por 1,47 ponto percentual. No Peru, Keiko Fujimori derrotou Roberto Sánchez por apenas 0,27 ponto. Em 2021, ela havia perdido para Pedro Castillo por quase a mesma distância. No Brasil, Lula venceu Bolsonaro em 2022 por apenas 1,8 ponto percentual.

Esses exemplos não provam que os eleitores rejeitem sempre candidaturas moderadas. Mostram, porém, que muitas sociedades estão profundamente divididas. Quando a disputa se transforma em um confronto entre dois campos antagônicos, o voto útil, a rejeição e o medo de perder passam a pesar mais do que o desejo abstrato de moderação.

Os candidatos conhecem essa lógica

Lula parece ter compreendido essa realidade e age de acordo com as expectativas de seu eleitorado. Depois de perceber que o confronto com Donald Trump lhe rendia dividendos políticos e melhorava sua posição nas pesquisas, endureceu o discurso contra os Estados Unidos e passou a explorar a defesa da soberania nacional. A recente crise com o Paraguai, provocada por uma declaração desnecessária às vésperas das eleições, reforça a impressão de que o embate com governos de direita também integra sua estratégia eleitoral.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, tenta apresentar uma imagem mais moderada, provavelmente para se distanciar do estilo beligerante do pai. Essa moderação, entretanto, está mais na forma que no conteúdo. Ele não deixa dúvidas de que combate a esquerda e pretende manter uma agenda conservadora, exatamente como deseja seu eleitorado.

Só uma grande reviravolta

Esse comportamento não é fruto do acaso. Boa parte dos discursos e pronunciamentos nasce de debates e reflexões das assessorias. Os partidos dispõem de pesquisas quantitativas e qualitativas, capazes de mostrar não apenas em quem o eleitor pretende votar, mas também o que deseja ouvir, quais temas o mobilizam e que palavras podem aproximá-lo ou afastá-lo de um candidato.

A não ser que ocorra uma reviravolta histórica, Lula e Flávio continuarão concentrando a disputa e são hoje os favoritos para chegar ao segundo turno. Quem demonstrar mais fôlego, sofrer menos desgaste e cometer menos erros de comunicação terá melhores condições de vencer.

Reinaldo Polito é Mestre em Ciências da Comunicação e professor de oratória nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. Presidente Emérito da Academia Paulista de Educação. Escreveu 36 livros com mais de 1,5 milhão de exemplares vendidos em 39 países. Siga no Instagram @polito, pelo facebook.com/reinaldopolito ou pergunte no contatos@polito.com.br

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