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O Cavaleiro de Garanhuns – por Foch Simão

Dom Quixote de La Mancha, o célebre fidalgo espanhol criado por Miguel de Cervantes, já em idade avançada, entregou-se com tamanha intensidade à leitura dos romances de cavalaria que acabou por perder o juízo.

Absorvido por narrativas de heróis, donzelas e feitos extraordinários, passou a acreditar que estava destinado a reviver uma era que já havia, há tempos, desaparecido. Autoproclamou-se cavaleiro andante em um mundo que não mais comportava as aventuras medievais da cavalaria.  

Convencido de que sua existência era uma epopeia, em sua mente, transformava a realidade em fantasia e procurava persuadir aqueles ao seu redor de que era um herói chamado a cumprir grandes missões. Via gigantes onde havia apenas moinhos de vento, castelos onde existiam simples estalagens e exércitos onde se encontravam rebanhos de ovelhas. Sua imaginação não apenas reinterpretava o mundo, ela, delirante, o substituía por completo.

Não surpreende, portanto, que seus contemporâneos o vissem como um excêntrico falastrão, cujas observações desconexas provocavam mais perplexidade do que admiração. Sua mente habitava um universo paralelo, regido pelas regras da cavalaria idealizada pelas literaturas clássicas dos romances medievais  e não pelas exigências concretas da vida cotidiana.

A mesma força imaginativa manifestava-se em sua devoção amorosa. Dom Quixote acreditava servir a uma dama sublime e perfeita, Dulcineia del Toboso. Contudo, essa mulher existia apenas como construção de sua imaginação. Na realidade, a inspiração para a figura idealizada era Aldonza Lorenzo, uma camponesa simples, de origem humilde e hábitos ordinários. Os traços rudes e cotidianos da mulher real eram completamente transfigurados pelo olhar apaixonado do fidalgo. Onde os demais viam uma trabalhadora comum, ele enxergava a mais nobre e virtuosa das damas.

Embora a magnífica obra de Miguel de Cervantes seja um clássico da literatura universal e contenha profundas reflexões sobre o ridículo de posturas anacrônicas, não faltam figuras na política brasileira que parecem encarnar, atualmente, a caricatura do Cavaleiro da Mancha.

Um exemplo notório é o desempenho do presidente brasileiro em fóruns internacionais e em seus arroubos geopolíticos, que fogem da liturgia diplomática tradicional.  Ao tentar assumir um papel de liderança regional desproporcional à influência efetiva do país, ao formular críticas e manifestações hostis contra as iniciativas geopolíticas do presidente dos Estados Unidos e do seu Secretário de Estado, Marco Rúbio, e, simultaneamente, estimular ou aprofundar controvérsias com países vizinhos, como Argentina e Paraguai, o fidalgo de Garanhuns corre o risco de transformar a sua política externa em fonte de atritos desnecessários.  

Para seus críticos, o país é representado por um líder que parece ainda viver nos paradigmas ideológicos das décadas de 1960 e 1970, o que resulta em declarações frequentemente desconectadas da realidade estratégica. A ponto de, segundo relatos, até mesmo aliados históricos, como o presidente francês Emmanuel Macron, terem demonstrado visível desconforto durante as intervenções do presidente brasileiro em encontros como a última reunião do G7, fórum composto por sete das maiores economias democráticas do mundo.

Essa figura populista, na visão de seus opositores, continua a contar com o apoio de uma parcela do eleitorado movida por saudosismo político ou por fidelidade ideológica quase incondicional. Tal como Sancho Pança acompanhava Dom Quixote em suas aventuras imaginárias, esses apoiadores enxergam em seu líder uma figura heroica, mantendo-se ao seu lado mesmo quando a realidade contradiz as narrativas que alimentam suas expectativas.

Essa perspectiva, que aos olhos dos críticos, paira sobre o país como uma sombra persistente, ameaça o seu futuro. Ao comprometer a estabilidade econômica e dificultar o desenvolvimento nacional, estas ações  provocativas e extemporâneas mantêm o Brasil à margem das transformações tecnológicas, comerciais e geopolíticas do século XXI, enquanto outras nações avançam nesses quesitos. O risco é a nação permanecer prisioneira de disputas ideológicas anacrônicas e de projetos de poder voltados mais para a retórica do que para resultados concretos.

Os efeitos práticos já são visíveis, materializados na redução da confiança dos investidores, insegurança jurídica, perda de competitividade e subutilização das extraordinárias vantagens comparativas do país. Dotado de vastos recursos naturais, de uma agricultura altamente produtiva, de expressivas reservas minerais e de uma população criativa e empreendedora, o Brasil possui condições para ocupar posição de destaque entre as grandes economias, oportunidades que, no entanto, se desperdiçam quando a gestão pública se distancia do pragmatismo e da racionalidade administrativa.

Nenhuma nação prospera sustentada apenas por discursos grandiloquentes ou pela nostalgia de tempos passados. O progresso exige planejamento, responsabilidade fiscal, segurança institucional, incentivo à produção e compromisso permanente com a formação e valorização do capital humano.

Enquanto o Dom Quixote tropical, acalentado pela sua Dulcineia e respaldado por seus fiéis Sanchos Panças, continuar a brandir sua lança contra moinhos de vento imaginários, concebidos por sua mente como grandes batalhas ideológicas, o país permanecerá à espera de governantes capazes de distinguir a fantasia da realidade.

Mais do que isso, necessitará de líderes dotados de lucidez, pragmatismo e senso de Estado, capazes de conduzi-lo pelos caminhos da prosperidade, do crescimento econômico e da estabilidade institucional, em vez de arrastá-lo para aventuras políticas quixotescas, cujos custos, invariavelmente elevados, acabam sendo suportados por toda a sociedade.

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