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O crepúsculo da razão – por Foch Simão

A tarefa de organizar o espólio de um ente querido é sempre um rito de passagem doloroso. Quando a minha querida mãe faleceu, fui encarregado dessa amarga triagem. Entre os seus bens materiais, deparei-me com uma imensa biblioteca que, em verdade, guardava o relicário intelectual dos meus amados progenitores. Em meio a centenas de volumes, encontrei obras de Machado de Assis, Fustel de Coulanges, Victor Hugo e Jean de La Fontaine. Eram joias literárias encadernadas em capa dura que serviram como bibliografia regular nos bancos escolares dos meus pais.

Enquanto analisava o acervo, recordava as conversas que tínhamos sobre cultura geral. A formação de ambos provinha do ensino público brasileiro da metade inicial do século vinte, um ensino que, embora acessível a menos pessoas na época, era denso, formador e rigoroso. Meus pais recitavam versos de Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira, de  cor, discorriam sobre fatos históricos com naturalidade e, ocasionalmente, corrigiam o meu português diante de qualquer deslize. Essa memória afetiva despertou em mim uma reflexão espantosa, a dimensão do abismo que separa a solidez educacional daquela época da superficialidade que marca as décadas posteriores, culminando na aridez intelectual dos tempos atuais. Naquele tempo, os professores eram tratados pelo epíteto de Mestres, o que realmente eram, hoje, são frequentemente desdenhados, quando não agredidos.

A cultura geral e a capacidade cognitiva da sociedade têm se reduzido de forma progressiva e alarmante. A linguagem, que é a principal ferramenta de estruturação do raciocínio humano, encontra-se sob constante ataque. Presenciamos hoje a imposição de termos artificiais e impronunciáveis, como o famigerado “todes”, sob a justificativa de uma inclusão que mais confunde do que integra. Somada a isso, há a vaidade tola de se empregar estrangeirismos desnecessários em detrimento do nosso riquíssimo idioma português. O uso de palavras como freelancer, schedule, mindset ou feedback, quando possuímos equivalentes perfeitos em nossa língua, não demonstra erudição, mas apenas uma falsa importância, um provincianismo disfarçado de modernidade.

Na época dos meus pais, os livros eram os tutores inquestionáveis do conhecimento. A imprensa, por sua vez, cumpria o papel de informar os fatos e fomentar o debate, abrigando em suas páginas os ricos comentários de articulistas livres-pensadores. Eram raros os “mercenários da pena”, profissionais que vendem suas convicções ao sabor do patrocínio ou da ideologia dominante, figura que hoje pulula e domina a mídia tradicional.

Atualmente, o livro tornou-se, quando muito, um objeto de distração passageira ou um mero adorno de estante. A verdadeira tutoria cultural foi terceirizada para as redes sociais e para os algoritmos. Os jornais, por sua vez, perderam sua profundidade analítica para se transformarem em rasos painéis informativos, onde as manchetes sensacionalistas se constituem em iscas de acionamentos que ganham destaque, visando apenas capturar uma audiência cuja capacidade de atenção dura meros segundos.

Esse declínio reflete-se, também, na nossa estrutura social. Antigamente, os mais velhos, mesmo quando não possuíam instrução acadêmica formal, atuavam como moderadores do comportamento e esteios da moralidade e das tradições. Havia um respeito intrínseco pela experiência de vida. Hoje, imersos no culto à juventude e à novidade efêmera, os anciãos passaram a ser vistos como antiquados, descartáveis e, não raro, como um verdadeiro estorvo para uma geração que acredita saber de tudo apenas porque tem o acesso à Internet.

O que vivenciamos é um fenômeno cognitivo de proporções globais. O acesso ilimitado à informação não gerou uma sociedade mais sábia; pelo contrário, “pasteurizou” o conhecimento real. A internet formou “bolhas” ideológicas impenetráveis, criando um fanatismo irracional onde o diálogo cedeu espaço ao cancelamento e à discórdia virtual.

Sem rédeas morais e imersa em parâmetros confusos, a sociedade se divide e perde a noção da própria ignorância. A tragédia da nossa era é que, apesar dos mais assombrosos avanços tecnológicos, a humanidade encontra-se cada vez mais isolada, insulando o ser humano em um casulo de soberba onde a mediocridade não é apenas aceita, ela é aplaudida.

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