As lembranças do lugar onde passamos alguns dos melhores momentos da vida costumam ser bastante agradáveis. Para muitos, foi uma época especialmente feliz. Pode ter sido a cidade natal, o bairro onde nascemos ou o lugar em que vivemos por longo período. Depois de alguns anos, bate uma vontade louca de retornar às origens, rever os amigos queridos e caminhar novamente pelos lugares que marcaram aquela fase.
Ainda que tenhamos enfrentado momentos difíceis, o que nos vem à mente são, em geral, as boas recordações. Ouvimos com frequência alguém dizer, em tom saudoso: aquela sim foi uma época gostosa. Como seria bom reviver os tempos que me deram tanta felicidade.
O passado não ficou parado
Algumas pessoas tentam voltar e se decepcionam ao descobrir que a realidade é diferente daquela que conservaram na memória. Muitos amigos se mudaram por causa dos estudos, do trabalho ou simplesmente porque a vida os levou para outros caminhos. Os que permaneceram já não são aqueles de quem nos lembrávamos. Adquiriram novos hábitos, fizeram outros planos. São outras pessoas.
Um rápido passeio pelas ruas que costumávamos frequentar pode causar estranhamento. O campo de terra batida onde jogávamos peladas com os amigos desapareceu. Em seu lugar surgiram casas e prédios. A sorveteria, o armazém e a barbearia deram lugar a novos estabelecimentos. Tudo parece familiar e, ao mesmo tempo, diferente.
Vemos com outros olhos
Às vezes a surpresa é ainda mais curiosa: a praça parece menor, a rua mais curta, a escola menos imponente. Não foi o lugar que encolheu. É o olhar adulto que agora mede de outra maneira aquilo que os olhos da infância transformavam em grandeza.
Thomas Wolfe transformou essa impossibilidade em literatura. Em You Can’t Go Home Again, publicado postumamente em 1940, George Webber escreve um romance sobre a família e a cidade natal. O livro faz sucesso, mas os antigos conhecidos se sentem expostos pela maneira como foram retratados. Quando ele retorna, encontra hostilidade justamente onde imaginava reencontrar pertencimento. A cidade continuava ali. A casa, de certa forma, não.
A vida seguiu sem nós
Quem assistiu ao filme As confissões de Schmidt, com Jack Nicholson, talvez se lembre de uma cena que traduz muito bem essa sensação. Warren Schmidt se aposenta aos 66 anos depois de dedicar boa parte da vida ao trabalho. Sem saber o que fazer com o tempo livre, volta ao escritório supondo que seria recebido com consideração por quem ocupava o cargo que havia sido dele.
O encontro é frio. Seu sucessor praticamente o despacha e, ao sair, Schmidt ainda vê antigos arquivos seus destinados ao lixo. É quando percebe, de maneira quase cruel, que aquele lugar ao qual dedicara tantos anos havia aprendido rapidamente a viver sem ele.
Um lugar no mapa e outro na vida
Pouco depois, sua esposa morre. Sentindo-se sem rumo, pega a estrada e começa uma viagem que também o leva a lugares do passado. Ao procurar a casa onde havia vivido na infância, descobre que ela não existe mais. No endereço funciona uma loja de pneus. A cena é simples, até engraçada pelo contraste, mas diz muito: o lugar permanece no mapa, não necessariamente na vida.
Esse talvez seja o ponto que mais nos engana quando sentimos vontade de voltar. Enquanto seguimos adiante, imaginamos que as pessoas e os lugares que deixamos para trás ficaram esperando por nós. Não ficaram. A vida continuou acontecendo ali também.
E nós também mudamos
Há ainda um detalhe que às vezes esquecemos. Quando voltamos, observamos com surpresa como os amigos mudaram, como as ruas se transformaram, como os hábitos são outros. Só não percebemos imediatamente que quem retorna também já não é a mesma pessoa que partiu.
Talvez por isso a tentativa de reviver o passado exija certas precauções desde o início. Podemos reencontrar pessoas, visitar lugares, recordar episódios, mas não reproduzir os sentimentos exatamente como foram. Aquilo que guardamos dentro de nós foi sendo selecionado, suavizado e até embelezado pelo tempo.
Vale a pena voltar para rever velhos amigos e lugares importantes da nossa vida. O cuidado está em não exigir do presente que reproduza aquilo que guardamos do passado. A cidade pode ser a mesma no mapa, mas já não será a mesma para nós. Aos lugares podemos retornar. Ao tempo, não.
Reinaldo Polito é Mestre em Ciências da Comunicação e professor de oratória nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. Presidente Emérito da Academia Paulista de Educação. Escreveu 34 livros com mais de 1,5 milhão de exemplares vendidos em 39 países. Siga no Instagram @polito, pelo facebook.com/reinaldopolito ou pergunte no contatos@polito.com.br












