Quando chegamos a uma idade em que nos percebemos suficientemente experientes para compreender, ainda que imperfeitamente, a natureza humana, alguns fatos nos surpreendem com uma intensidade inesperada. Não me refiro à morte, esta, por mais dolorosa que seja, é uma perspectiva corriqueira e inexorável da nossa existência. Refiro-me a algo talvez ainda mais desconcertante, a transformação de pessoas com quem mantivemos um longo e harmonioso convívio em indivíduos tomados pela intolerância e pelo fanatismo político, capazes de atacar seus próprios pares e romper vínculos sociais, familiares e de amizade simplesmente porque estes não compartilham da mesma visão ideológica.
Recentemente, fui surpreendido por um ataque raivoso, através de uma mídia social, motivado por um artigo no qual manifestei críticas à política tributária do atual governo brasileiro. Não houve contestação aos argumentos, nem contraposição de ideias. Em seu lugar, surgiu uma enxurrada de ofensas pessoais e acusações desprovidas de qualquer fundamento. Nos tempos atuais, infelizmente, a hostilidade de natureza ideológica já não causa o mesmo sobressalto. Tornou-se uma manifestação demasiadamente frequente em uma sociedade submetida à polarização política e à intolerância. O que, entretanto, torna determinados episódios particularmente dolorosos é a identidade de quem nos agride.
Quando o ofensor é alguém com quem compartilhamos meio século de existência, com quem repartimos os tenros anos da infância, vivemos as aventuras da adolescência e dividimos os sonhos, as inquietações e os devaneios da juventude, o impacto é profundamente diferente. A agressão deixa de ser apenas uma divergência política e passa a atingir algo muito mais profundo, constituído pela memória de uma vida compartilhada.
É inevitável, então, que revisitemos o passado na tentativa de compreender de onde nasceu tamanha hostilidade. Procuramos, entre lembranças antigas, algum acontecimento que possa explicar a ruptura; alguma raiz escondida que justifique uma ira que, até então, parecia inexistente. Mas talvez estejamos procurando no lugar errado.
Ao refletir sobre o episódio, percebi que ele não constitui necessariamente um fenômeno isolado. Vivemos em uma época marcada pelo enfraquecimento dos vínculos comunitários, pela crescente exaltação do ego e por uma preocupante carência de espiritualidade. Em um ambiente assim, a convicção política deixa, muitas vezes, de ser apenas uma maneira de interpretar a realidade e transformase em uma espécie de identidade pessoal.
Quando isso acontece, discordar de uma ideia passa a ser interpretado como uma agressão ao próprio indivíduo. O oponente político deixa de ser alguém que pensa de maneira diferente e passa a ser percebido como inimigo. E, quando o outro é transformado em inimigo, desaparecem a tolerância, a capacidade de escutar e até mesmo a lembrança dos vínculos que anteriormente nos uniam, se transforma em um verdadeiro conflito fratricida.
É assim que nasce a cizânia, ela raramente surge de maneira repentina. Alimentase lentamente do ressentimento, do orgulho, da intolerância e da convicção de que somente o um lado possui a verdade, comoção deliberadamente nutrida pelos nefastos discípulos de Éris, a deusa da discórdia e da intriga, que prosperam sobre as fraturas ideológicas e delas se locupletam, convertendo a divisão entre os homens em passaporte para o poder. O fenômeno se incrementa, ainda mais, quando substituímos o diálogo pelo insulto, a argumentação pela desqualificação e a fraternidade pela militância.
O mais inquietante é perceber que a política, que deveria ser instrumento de organização da vida coletiva, tornou-se para muitos uma espécie de religião secular. E, como ocorre com os fanatismos de qualquer natureza, passa-se a defender não apenas ideias, mas dogmas; não apenas projetos, mas pessoas; não apenas posições, mas uma identidade que não admite contestação.
Talvez seja essa uma das grandes tragédias do nosso tempo, quando permitimos que divergências circunstanciais destruíssem relações construídas ao longo de décadas. Nenhuma ideologia deveria ser suficientemente poderosa para apagar uma infância compartilhada. Nenhuma disputa política deveria ser capaz de transformar um amigo de cinquenta anos em inimigo. Nenhuma divergência de opinião deveria nos fazer esquecer que, antes de pertencermos a partidos, grupos ou correntes de pensamento, somos seres humanos unidos por uma mesma condição e por uma existência igualmente breve.
A política passa, os governos passam, as ideologias passam, até mesmo as nossas certezas, muitas vezes, passam. O que permanece são as lembranças, os afetos e os vínculos que construímos ao longo da vida. Talvez preservar esses vínculos, em uma época dominada pela cizânia, seja uma das formas mais difíceis e mais nobres de exercer a própria liberdade.












