“Farmar aura” é um modismo do nosso tempo. A expressão nasceu na cultura digital e traduz a busca por presença, carisma, estilo, reconhecimento e admiração. Farmamos aura quando construímos a percepção que os outros têm de nós. Mas há uma pergunta muito mais antiga: o que estamos fazendo para construir aquilo que somos?
A ideia de formar o caráter nos remete a Sócrates. Não temos escritos deixados por ele; seu pensamento chegou até nós principalmente pelos diálogos de Platão. E neles encontramos uma preocupação que continua atual: a vida não deveria ser apenas uma busca pelo que parece bom, mas pelo que é verdadeiramente bom. Não apenas parecer virtuoso, mas tornar-se virtuoso.
Talvez aí esteja o paradoxo do nosso tempo. Nunca tivemos tantas ferramentas para construir nossa imagem e tão poucas razões para acreditar que imagem e essência sejam a mesma coisa. Podemos editar fotografias, discursos, currículos, perfis e até nossa narrativa.
Podemos farmar aura todos os dias. Mas caráter não pode ser editado.
Na vida pessoal, valores aparecem quando não há plateia. Honestidade quando mentir seria mais fácil. Lealdade quando ninguém saberia da traição. Coragem quando o medo recomenda recuar. É nas pequenas escolhas, repetidas ao longo do tempo, que vamos formando o caráter — não nas grandes declarações que fazemos sobre nós mesmos.
E isso vale igualmente para as organizações. Empresas também farmam aura. Incorporam palavras que ganharam força: propósito, inovação, sustentabilidade, diversidade, cultura, ética. O problema não está nos conceitos, mas quando eles viram linguagem institucional sem correspondência nas decisões.
Valor só existe quando orienta uma escolha. Propósito só existe quando orienta um caminho.
Uma empresa pode ter excelente aura e péssimo caráter. Pode comunicar propósito e praticar oportunismo. Pode falar de pessoas e tratá-las como números. Da mesma forma, um líder pode inspirar milhares em um palco e revelar seu verdadeiro caráter diante de uma decisão que ninguém verá.
Aura é percepção. Caráter é construção. A primeira pode ser acelerada por algoritmos. O segundo exige tempo, disciplina, coerência e, muitas vezes, a coragem de fazer aquilo que não produz aplauso.
Sócrates nos deixou, por meio de Platão, uma provocação que atravessa séculos: não basta cuidar daquilo que temos; precisamos cuidar daquilo que somos. E talvez essa seja uma das reflexões mais necessárias em uma época tão obcecada pela própria imagem.
Farmar aura pode nos tornar mais interessantes aos olhos dos outros.
Formar caráter pode nos tornar melhores aos nossos próprios olhos.
Quando o modismo passar, os algoritmos mudarem e as curtidas desaparecerem, talvez reste apenas uma pergunta:
Que pessoa nós formamos? Que empresa nós construímos?












