Estamos nos aproximando de mais uma eleição. Os eleitores vão escolher deputados federais e estaduais, senadores, governadores e Presidente da República. Para os cargos majoritários, não há problema, pois quem tiver mais votos vence. Já não ocorre o mesmo no sistema proporcional.
Há uma distorção gritante no processo eleitoral brasileiro. Dos 513 deputados federais, apenas pequena parcela, cerca de 5%, se elege com votos suficientes para garantir a própria vaga. Os demais pegam carona nos votos recebidos pelos partidos e pelos candidatos mais bem votados. Ou seja, temos uma influência quase desprezível nas eleições. É desalentador saber que elegemos diretamente um percentual tão baixo dos representantes da Câmara.
Fortalecer os partidos
Como quem deveria promover mudanças no processo são os próprios deputados, as chances de iniciativa são praticamente nulas. Poucos eleitores que votaram em Tiririca, por exemplo, têm consciência de que “essa brincadeira” ou “voto de protesto” ajudou a carregar para o Congresso políticos que dificilmente se elegeriam apenas com seus próprios votos.
O objetivo do sistema proporcional de votação é o de fortalecer os partidos. Os cálculos são complexos. São utilizados o quociente eleitoral e o quociente partidário. Para se obter o quociente eleitoral, divide-se a quantidade de votos válidos pelo número de vagas determinadas para o cargo. Já o quociente partidário define quantas vagas cada partido terá direito, com base no total de votos obtidos pela legenda e por seus candidatos.
Vota em um e elege outro
Mas, na prática, esse modelo acaba criando uma desconexão profunda entre o eleitor e o eleito. O cidadão vota em um candidato específico, acreditando estar escolhendo alguém que represente suas ideias, mas o voto pode acabar elegendo outra pessoa diferente, alguém que ele jamais apoiaria. Isso gera sensação de impotência e falta de controle sobre o próprio voto. É como se o eleitor participasse de um jogo cujas regras não foram explicadas com clareza.
Além disso, o sistema proporcional estimula a proliferação de partidos sem representatividade real. Como o voto é contabilizado para a legenda, basta que um partido consiga um puxador de votos para garantir a entrada de vários outros nomes, mesmo que sejam figuras desconhecidas, sem propostas concretas ou sem qualquer vínculo com a população. Isso enfraquece a qualidade da representação e transforma o Parlamento em um mosaico de interesses fragmentados, muitas vezes desconectados das necessidades do país.
Muitos se elegem com poucos votos
Outro problema é que o sistema cria distorções regionais. Um candidato com poucos votos em um estado pode ser eleito, enquanto outro, com muito mais votos em outro estado, pode ficar de fora. Isso ocorre porque o cálculo das vagas é feito por estado, e não nacionalmente. O resultado é que o peso do voto varia conforme o estado em que o eleitor vive, o que contraria o princípio básico de igualdade política.
A consequência mais grave dessa lógica é o afastamento entre sociedade e política. Quando o eleitor percebe que seu voto não tem impacto direto, ele se desmotiva. A abstenção cresce, o voto nulo aumenta, e a confiança nas instituições se deteriora. O sistema proporcional, tal como funciona hoje, não incentiva a responsabilidade individual do candidato nem a clareza programática dos partidos. Pelo contrário: cria atalhos, distorce a vontade popular e dificulta a renovação política.
Mudança difícil
É evidente que qualquer mudança significativa dependeria da aprovação dos próprios deputados, justamente os maiores beneficiados pelo modelo atual. Não há incentivo para que abram mão de um sistema que lhes garante vantagens, visibilidade e segurança eleitoral. Assim, o eleitor fica preso em um ciclo vicioso: insatisfeito com a política, mas incapaz de alterá-la pelas vias institucionais.
Enquanto isso, seguimos com um sistema que dá ao eleitor a ilusão de escolha, mas que, na prática, limita sua capacidade de influenciar a composição da Câmara. A democracia perde força quando o voto deixa de ser um instrumento de decisão e se transforma em um mecanismo opaco, cheio de cálculos e distorções que poucos compreendem. O mínimo que se espera de um processo eleitoral é transparência e representatividade. Infelizmente, o modelo atual falha em entregar ambos.












