A sucessão de escândalos no Brasil revela uma engrenagem política incapaz de reagir ao que a sociedade já assimilou: há operadores públicos e privados que atravessam governos e partidos com uma facilidade que desmonta qualquer ilusão de antagonismo ideológico. O episódio do INSS, encerrado com a rejeição de um relatório robusto que propunha mais de duzentos indiciamentos, mostrou como a política institucional é capaz de proteger seus próprios vínculos mesmo diante de fatos que indignam o país inteiro. A investigação apontava suspeitas que alcançavam figuras próximas de Lula e de Bolsonaro, mas ainda assim o sistema encontrou conforto em esvaziar o processo.
O caso Banco Master repete o padrão, porém com densidade maior e conexões mais amplas.
Daniel Vorcaro tornou-se o símbolo de um novo tipo de operador: alguém capaz de transitar com desenvoltura entre o entorno do governo, setores do Centrão e parcelas significativas do bolsonarismo. Suas operações com carteiras de crédito consideradas fraudulentas pelo Banco Central, associadas à atuação de Henrique Moura Vorcaro e à presença de Lucas Kallas, Nelson Tanuri, Nelson Williams e outros, em estruturas empresariais com contratos vultosos, indicam um ecossistema que cresce justamente por não depender de um único polo político. Relatos na imprensa já mencionaram ligações que tangenciam Flávio Bolsonaro, demonstrando que a teia de relações construída pelo Master tem alcance suficiente para comprometer múltiplos grupos. Essa transversalidade não é novidade: o “Petrolão” envolveu executivos como Marcelo Odebrecht, Emílio Odebrecht, Léo Pinheiro e Ricardo Pessoa; a Lava Jato expôs operadores como Alberto Youssef e Fernando Baiano; o Mensalão revelou o núcleo de Marcos Valério. A alternância de poder não desmonta esses arranjos; apenas renova seus interlocutores.
A pergunta central permanece: por que a política reage tão pouco? O motivo é estrutural. O sistema opera condicionado por alianças internas, dependências cruzadas e riscos reputacionais que tornam qualquer investigação profunda uma ameaça ao equilíbrio entre grupos. Quando um escândalo atinge apenas o adversário, a resposta é ruidosa. Quando atravessa diversos partidos, o silêncio tende a dominar. A consequência é um cenário em que personagens com amplo histórico judicial retornam ao palco público sem constrangimento. Sérgio Cabral reaparece em eventos como se sua trajetória não representasse um dos piores ciclos de corrupção do Rio de Janeiro. Ciro Nogueira tornou-se um dos articuladores centrais do país. A mensagem implícita é clara: a política absorve suas próprias deformações e neutraliza suas próprias ameaças.
No caso Master, cresce a suspeita de que se articula um acordo que limitará danos, preservará nomes influentes e sacrificará apenas operadores secundários. A lógica é conhecida: colaboração controlada, punições módicas, narrativas convenientes e um desfecho que permite ao sistema retomar seu funcionamento. O que ocorreu na CPMI do INSS funciona como prenúncio: quando a política percebe que a verdade ameaça à integridade de suas redes internas, ela prefere desmontar o processo a enfrentar o custo de expor seus vínculos.
Resta a sociedade impedir que a história se repita. É necessário romper a sequência que transforma indignação pública em acomodação institucional. O caso Master tem potencial para seguir o caminho da pizza já servida no INSS. Evitar esse desfecho exige vigilância, denúncia e valorização efetiva do voto. Sem isso, os grandes serão preservados mais uma vez, os pequenos pagarão a conta e o país seguirá adiante, empurrando a realidade para debaixo do tapete enquanto a desigualdade se aprofunda e a representação política se esvazia.
Doutor em Economia por Harvard, Marcos Cintra é atualmente professor titular da Fundação Getúlio Vargas e conselheiro do Instituto Atlântico.
Foi Vereador, Deputado Federal, Secretário Especial da Receita Federal do Brasil do Ministério da Economia, Presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), Secretário do Planejamento do Município de São Paulo, Secretário de Finanças do Município de São Bernardo do Campo, Secretário do Desenvolvimento Econômico e Trabalho do Município de São Paulo e Subsecretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo.











