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Não podemos tolerar a corrupção – por Roberto Livianu

Seis anos atrás, ao se apresentar publicamente em determinada convenção de um partido político, um ex-prefeito do município de Cocal, no Piauí, causou perplexidade geral ao afirmar que deveria ser considerado um homem “honesto”, pois havia roubado menos que o prefeito naquela cidade.

E o político na ocasião continuou: “Eu posso até ter tirado alguma coisa dos pobres […] se eu tivesse feito tudo direito, não teria sido preso, né?”. Ele já havia sido preso em certa operação da Polícia Federal sob acusação de desviar recursos da educação.

Ainda pior do que sua afirmação bizarra foram os aplausos públicos consagradores, endossando e tolerando a corrupção, como se fosse possível imaginar uma régua comparativa dos ladrões da coisa pública, classificando os menos ladrões como homens bons e benfeitores, talvez uma versão 4.0 do “rouba, mas faz”.

É algo simplesmente inacreditável porque a ética e a moralidade deveriam ser elementos em relação aos quais não se pudesse transigir em hipótese alguma e não se pudesse tolerar jamais qualquer espécie de transgressão. Não pode haver concessão alguma nesse campo.

Vale lembrar, no entanto, que no ano seguinte, em outubro de 2021, dentro do processo de desmonte das leis anticorrupção, o Congresso aprovou a Lei 14.230, que tornou pó a Lei de Improbidade Administrativa. Deixou de punir quase todas as improbidades por violação aos princípios da administração pública (artigo 11), bem como as improbidades culposas, e estabeleceu prazo de 1 ano para o MP investigar. Um conjunto de regras para garantir impunidade por lei.

Por muito pouco, a Câmara não tornou legalizada e totalmente legítima a prática do nepotismo, o que foi afastado ao final. Mas o então líder do Governo na Câmara concedeu histórica entrevista a um grande veículo de mídia defendendo com empenho e convicção a ideia de que o nepotismo (admitir parentes para funções públicas) representaria a essência da virtude da administração pública no Brasil.

De fato, passados 5 anos do desmonte da lei, desabou o número de ações civis públicas por improbidade. A queda foi superior a 90% porque o Ministério Público não tem mais como agir, está desarmado e a impunidade da corrupção fala mais alto, lamentavelmente.

Além disso, há poucas semanas, o The Intercept revelou que o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, conversou com o fundador do Banco Master insistindo que fosse liberada verba milionária (o quíntuplo do valor do orçamento total do premiado filme “O Agente Secreto”) para que se produzisse filme sobre a vida do ex-presidente Bolsonaro. A produtora dessa jornada política jamais produziu um filme sequer e pelo que se noticia não recebeu o repasse dos R$ 60 milhões que Daniel Vorcaro já teria enviado anteriormente.

Apesar da gravidade das revelações sob investigação e do linguajar utilizado pelo senador no áudio, as pesquisas sobre as eleições mostram que houve pouco impacto sobre sua candidatura. Pesquisa PoderData divulgada na 6ª feira (29.mai.2026) mostra o candidato já empatado com o atual presidente na disputa.

Ou seja, é de fato desolador constatar que parte importante do eleitorado tolera corrupção e mentiras, como indica um editorial do Estadão sobre o tema.

Essa tolerância já era perceptível na reação dos aplausos em Cocal 6 anos atrás e agora se renova nos números das pesquisas em relação à indiferença demonstrada aos gravíssimos fatos relacionados à produção cinematográfica. O quadro sugere que, apesar de reiteradas pesquisas sinalizarem que os brasileiros hoje têm noção de que a corrupção representa um problema, ao mesmo tempo, em termos de escolhas eleitorais, as sombras da demagogia populista (à esquerda e à direita) podem falar mais alto.

Mesmo havendo um aumento do grau da consciência geral de que há corrupção e de que ela causa consequências nefastas, os negacionismos políticos sobrevivem. Não há compromisso em relação a seu enfrentamento por parte de grupo político algum que conquista o poder, sucedendo-se alianças incestuosas entre Executivo e Legislativo para sabotar a prevenção e o combate à corrupção, sem se construir uma verdadeira política pública anticorrupção que sobreviva aos governos e governantes.

A 4 meses das eleições, o pleito representa uma oportunidade de renovação da representação política na Presidência da República, nos governos dos Estados, em ⅔ do Senado, na Câmara dos Deputados e nas Assembleias Legislativas, o que multiplica a responsabilidade pelo voto obrigatoriamente vigilante e consciente para ser instrumento da urgente revitalização do princípio da prevalência do interesse público.

Roberto Livianu, 57 anos, é procurador de Justiça, atuando na área criminal, e doutor em direito pela USP. Idealizou e preside o Instituto Não Aceito Corrupção. Integra a bancada do Linha Direta com a Justiça, da Rádio Bandeirantes, e a Academia Paulista de Letras Jurídicas. É articulista da Rádio Justiça, do STF, do O Globo e da Folha de S. Paulo. Escreve para o Poder360 semanalmente às terças-feiras.

Leia mais no texto original: (https://www.poder360.com.br/opiniao/nao-podemos-tolerar-a-corrupcao/)
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