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A Coluna em Luís Gomes (RN) – por Gaudêncio Torquato

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Em Luís Gomes, cidade em que nasci, se repetiram as “ações revolucionárias”, com uma sequência de saques de residências e casas comerciais. O povo se recolheu.

Muitos fugiram para o mato, levando o que podiam. Outros fecharam portas e janelas e rezaram, temendo tanto o saque quanto a vingança futura do governo. Os homens da Coluna chegaram sem resistência. Não houve tiros nem mortes. Mas houve impacto.

Um dos episódios mais lembrados até hoje na cidade é o saque ao armazém de secos e molhados de “seu Gaudêncio”, que era o mais bem abastecido da região. “Seu” Gaudêncio, dizem, observou de longe a chegada dos invasores. Assistiu, impotente, ao saque à loja. Levaram farinha, latas de carne, tecidos, medicamentos e até o velho fuzil que ele mantinha pendurado atrás do balcão. Um dos homens teria deixado uma moeda de prata sobre o caixote – gesto simbólico, que o comerciante considerou mais insulto do que compensação.

Neste ponto, resgato um relato que ouvi do meu pai, acrescido de informações de seu biógrafo, Adolfo Paulino:

(…) Sabia quase tudo sobre a Coluna Prestes, que invadiu Luís Gomes em 5 de fevereiro de 1926, às 8h10, uma sexta-feira. O Estado-Maior Revolucionário era composto por Luís Carlos Prestes, Miguel Costa, Cordeiro de Farias, Siqueira Campos, Djalma Dutra, João Alberto e Ari Salgado. Esse grupo passou em Luís Gomes. Só não estava Juarez Távora, que havia sido preso, em 31 de dezembro de 1925, nas proximidades de Teresina, ficando incomunicável no quartel do 25.º B.C. da capital piauiense.

Muitos fugiram da cidade. O tenente-coronel Djalma Dutra requisitou por escrito grande quantidade de tecidos e cereais. Lembra Adolfo Paulino, que ouvira isso do próprio Gaudêncio:

— Principalmente brim cáqui para fardamento, chapéus, sapatos, além de peças de tecido vermelho para a confecção de lenços para os revoltosos.

Djalma Dutra, assinando por Prestes, fez a requisição em um pedaço de papel, prometendo ressarcir os produtos da loja do meu pai após a vitória da Revolução. O documento era guardado em um cofre esverdeado no interior da loja e se perdeu por ocasião da morte do “velho”.

Segundo o grande folclorista e orgulho da terra potiguar, Luís da Câmara Cascudo, em seu livro História da República do Rio Grande do Norte, os prejuízos em Luís Gomes foram de 23:036$096 (23 contos, 36 mil e 96 réis) , mas os de São Miguel (outra cidade da região) somaram 307:330$000 (307 contos e 330 mil réis).

Papai chegou a ser preso por Siqueira Campos, que exigiu o resgate de dois contos de réis para soltá-lo. Atendendo a apelos, Campos o soltou com o pagamento de cinquenta mil réis e muita “diplomacia”. Gaudêncio usou de bons modos ao clamar pela soltura.

Ouvi dele em mais de uma vez essa historinha: curioso, queria saber o que iria acontecer. Aproximou-se do Estado-Maior, cujos componentes almoçavam na repartição da Agência Postal Telegráfica, dirigida pelo telegrafista baiano Vilas-Boas. O grupo conversava e meu pai chegou perto. De repente, Prestes olhou para o intruso e perguntou: “O jovem quer alguma coisa?”. Ao ouvir isso, Gaudêncio escapuliu de fininho.

O marechal gargalha

Com certa apreensão, travei contato com uma figura que, na ditadura, foi ministro do Interior de Castello Branco, o marechal Cordeiro de Farias, um dos líderes da famosa Coluna Prestes. Foi a Recife como ministro do Interior, oportunidade em que o conheci. Eu iniciava minha carreira jornalística no Jornal do Brasil.

Contei o episódio vivido por meu pai ao próprio Cordeiro de Farias, em 1964, no início da construção da barragem da Boa Esperança. O evento começava com a explosão de uma rocha para desvio das águas do Rio Parnaíba, na fronteira do Piauí com o Maranhão. Os jornalistas saíram de Recife em um Douglas DC-3, atrás do avião do ministro.

— Luís Gomes?

Respondi:

— No extremo-oeste do Rio Grande do Norte, na fronteira com a Paraíba.

— Ah, eu me lembro!

Ele se lembrava, não do episódio, mas da cidade. Contei a história, e o marechal deu uma gargalhada.

A Coluna Prestes percorreu mais de 25 mil quilômetros entre 1925 e 1927, caminhando cerca de 40 km/dia, utilizando mais de 100.000 cavalos e consumindo mais de 30.000 reses na alimentação da tropa. Morreram 600 soldados e 70 oficiais. Dispararam cerca de 350.000 tiros e travaram 53 combates.

Saiu do Nordeste, atravessou todo o País e, após percorrer o Centro-Oeste, Luís Carlos Prestes, em 1927, entrou na Bolívia e, a seguir, na Argentina. A divergência ideológica, em 1930, separou os companheiros. A Coluna Prestes fez história.

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