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A África muito além do sucesso no futebol – por Karin Brüning

Vivemos um cenário internacional de reorganização. Cadeias globais de produção são reprogramadas, como reflexo de tensões geopolíticas, gerando a busca por fornecedores alternativos. A apreensão com cenários futuros é constante, consequência da crise climática, de problemas energéticos e da segurança alimentar, fazendo com que novas parcerias entre economias emergentes ganhem relevância.

Nesse contexto, uma aproximação estruturada entre Mercosul e a Área de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA) pode representar um dos maiores projetos de integração econômica do Hemisfério Sul. Enquanto o Mercosul oferece elevada capacidade agrícola, industrial e tecnológica em diversos segmentos, a África apresenta o maior crescimento demográfico mundial (aproximadamente 2,5 bilhões até 2050), abundância de minerais críticos, rápida urbanização e um mercado consumidor em expansão. Além disso, nas próximas décadas, concentrará a maior força de trabalho jovem do planeta, justamente em um momento em que Europa, Japão, China e até parte da América Latina enfrentarão envelhecimento populacional.

Com um mercado de 1,4 bilhão de pessoas e um PIB combinado de US$ 3,4 trilhões, a AfCFTA visa reduzir drasticamente as barreiras não tarifárias e estimular o comércio intra-africano, que atualmente é de apenas 15%, comparado aos 60% na Ásia. A expectativa é que a AfCFTA eleve as exportações africanas para o resto do mundo em 32% até 2035.

Quando comparada ao Mercosul, a AfCFTA demonstra uma dinâmica de integração regional por caminhos diferentes. O Mercosul, com 295 milhões de habitantes e um PIB de cerca de US$ 3 trilhões, embora consolidado, enfrenta desafios de coordenação política e divergências comerciais entre seus membros, o que tem limitado o avanço de acordos extrarregionais mais ambiciosos. Para o Brasil, o Mercosul é vital no comércio de manufaturados, mas a necessidade de modernização do bloco é urgente, com o objetivo de manter a relevância em um cenário global.

O Mercosul busca estabilidade e abertura, por outro lado a África está em uma fase de expansão e integração acelerada, o que pode posicionar o continente como um dos maiores blocos econômicos do mundo até 2045, superando a fragmentação que historicamente limitou seu crescimento.

Uma parceria entre os dois blocos, Mercosul e AfCFTA, teria provavelmente o agronegócio como principal vetor, uma vez que a África deverá dobrar sua demanda por alimentos até 2050 devido ao crescimento populacional e o Mercosul possui vantagens competitivas em soja, milho, carnes, café, açúcar, arroz, máquinas agrícolas e genética animal. Além das exportações, existe grande potencial para instalação de fazendas-modelo, irrigação, agricultura tropical e produção local de alimentos. O Brasil, particularmente, se destaca na área de inovação, com hubs tecnológicos e uma liderança clara em agrotech e fintech, uma vez que a capacidade brasileira de gerar inovação a partir de sua base acadêmica e empresarial é superior à média de muitas economias de renda média.

Do lado africano, observa-se um potencial de inovação em rápida ascensão. Países como Nigéria, Quênia, África do Sul e Marrocos estão se tornando hubs tecnológicos, com destaque para soluções digitais em pagamentos móveis e agronegócio.

Crédito: @greenrevolutionbr

E voltando ao agronegócio… Segundo a Comissão Econômica das Nações Unidas para a África (UNECA), a AfCFTA poderá impulsionar significativamente a cadeia regional de fertilizantes. Entre 2019 e 2023, o continente exportou cerca de US$ 10 bilhões por ano em fertilizantes para fora da África, enquanto importou aproximadamente US$ 3,7 bilhões de outras regiões, evidenciando espaço para integração produtiva. Empresas brasileiras podem nesse contexto contribuir com fertilizantes biológicos, agricultura regenerativa e manejo de solos tropicais.

No que se refere à questão ambiental, ambos os blocos possuem um potencial natural extraordinário, mas com abordagens e desafios diferentes na sua exploração e preservação. Os países do Mercosul, especialmente o Brasil, têm se posicionado como líderes em bioeconomia e no mercado de créditos de carbono, com a Amazônia e outros biomas sendo ativos estratégicos globais.

O continente africano, por sua vez, possui reservas massivas de minerais críticos (lítio, cobalto, cobre) essenciais para a transição energética global, além de um imenso potencial para energia solar e eólica. Outro motor dessa cooperação, portanto, poderá ser a transição energética. Segundo a UNECA o continente africano demandará investimentos acumulados (cerca de US$ 22,4 bilhões) em infraestrutura elétrica entre 2025 e 2040, com aproximadamente 80% destinados a fontes renováveis.

Em resumo, a África poderá ser uma potência nas próximas décadas, não somente no futebol, mas como um continente cuja importância econômica, demográfica e estratégica tende a crescer de maneira expressiva. Assim como o Mercosul, o seu sucesso dependerá de sua capacidade de superar desafios internos e externos, aproveitando suas vantagens comparativas para impulsionar o crescimento e o desenvolvimento sustentável.

Karin Brüning é cientista e ambientalista, licenciada em Química pela Universidade de Heidelberg (Alemanha), doutora em Síntese de Dendrímeros de Carbosiloxanos pela UFRJ, com pesquisas no MIT. Fundadora da @playrecycling, plataforma de educação ambiental.

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