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Arraes no palácio cercado – por Gaudêncio Torquato

Hoje, retomo o fio de minhas lembranças. Vou buscá-lo nos meus tempos de repórter no Recife, quando aprendia a decifrar o país por meio dos personagens que entrevistava. Eram homens públicos cercados por paixões, conflitos e circunstâncias que, muitas vezes, ultrapassavam suas próprias biografias. Começo por Miguel Arraes, uma das figuras mais emblemáticas da história política de Pernambuco.

Quando penso em Arraes, a memória me leva inevitavelmente ao dia 1º de abril de 1964. Naquela manhã, os tanques do Exército cercaram o Palácio do Campo das Princesas. Um coronel comunicou ao governador que ele seria preso. Arraes respondeu com a serenidade obstinada que marcaria sua vida pública:

— Sou o governador e assumirei o governo onde estiver.

Lá fora, o Recife fervia. Estudantes organizaram uma passeata de resistência. No confronto com a polícia, dois jovens morreram e três ficaram feridos. O comandante do IV Exército, general Justino Alves Bastos, telefonou para Arraes e tentou convencê-lo a se entregar. Dentro do palácio, as portas foram fechadas. Não era apenas um edifício que se isolava: era um governo democraticamente eleito que começava a ser separado, pela força, da população que o escolhera.

Os coronéis João Dutra Castilho, comandante do 14º Regimento de Infantaria, e Ivan Rui de Andrade Oliveira, do 7º Regimento de Obuses, chegaram ao palácio com uma ordem. João Goulart havia sido deposto, disseram; as Forças Armadas assumiam o comando do país, e Arraes deveria renunciar. Ele se recusou.

Ao cair da noite, os militares voltaram para prendê-lo. O palácio já estava praticamente vazio. Restavam Miguel Arraes, seu tio Antônio Arraes de Alencar e Valdir Ximenes, diretor da Companhia de Revenda e Colonização e marido de uma prima do governador. A solidão dos três homens naquele casarão cercado talvez seja uma das imagens mais expressivas daquele momento: o poder civil reduzido a poucas presenças, enquanto o poder das armas se espalhava pelas ruas.

Arraes deixou o Campo das Princesas e foi conduzido à sede do 14º Regimento de Infantaria, em Socorro, Jaboatão dos Guararapes. Enquanto ele era mantido preso, a Assembleia Legislativa realizou uma sessão extraordinária sob a vigilância de militares instalados no plenário. Por 45 votos contra 16 e um voto em branco, declarou a vacância do cargo de governador. A Câmara Municipal do Recife, reunida em sessão permanente, cassou o mandato do prefeito Pelópidas Silveira.

Na manhã de 2 de abril, as emissoras de rádio anunciaram que Miguel Arraes havia sido transferido para Fernando de Noronha. O vice-governador Paulo Guerra assumiu o governo. Foi ele quem encontrei no lugar de Arraes quando fiz minha primeira matéria para o Jornal do Brasil, intitulada “Governadores do NE apoiam Reforma Agrária”. A reportagem trazia a marca daqueles dias: os nomes permaneciam, mas as cadeiras já haviam mudado de ocupante; os projetos políticos continuavam escritos no papel, enquanto a história alterava, à força, o seu curso.

Quarenta anos depois, em depoimento concedido à Agência Brasil, em 4 de março de 2004, Arraes recordaria os acontecimentos sem procurar vestir a roupa do herói. Disse que fora preso no exercício do cargo e que nada pudera fazer, porque as resistências já haviam caído em todo o país. Afirmou também que o golpe não o surpreendera. Estivera no comício de 13 de março, na Central do Brasil, e depois seguira para Juiz de Fora, Belo Horizonte e Brasília. Ao conversar com João Goulart, por volta dos dias 17 ou 18 de março, advertira:

— O golpe está na rua.

Retornou a Pernambuco disposto a organizar uma reação, caso ainda fosse possível. Não foi. As resistências haviam desmoronado antes que ele pudesse iniciá-la. Arraes entendia que a conspiração não nascera naquele março turbulento; vinha de longe, acompanhando a vida brasileira desde a volta de Getúlio Vargas ao poder.

Havia em seu depoimento uma frase que condensava sua disciplina de homem público: “Quem luta politicamente não tem direito de ter mágoa, nem alegria, só pode pensar naquilo que deve fazer.” Não dizia guardar ressentimento pessoal, mas revolta pelos excessos cometidos contra tantos companheiros — os mortos, os torturados, os presos, os perseguidos e os discriminados.

Arraes permaneceu pouco mais de um ano na prisão. Foi libertado por um habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal, voltou a ser preso e novamente libertado. Entre detenções e depoimentos, já nem sempre chamava seu advogado, o doutor Sobral Pinto. Até que concluiu não haver mais espaço para permanecer no Brasil. Viveu cerca de um mês na clandestinidade, buscou abrigo diplomático e conseguiu chegar à Argélia, onde passaria 14 anos no exílio.

Ao falar das Ligas Camponesas, Arraes procurava separar a dimensão histórica da mitologia construída em torno do movimento. As Ligas, criadas a partir de 1945 e ligadas inicialmente ao Partido Comunista Brasileiro, tiveram entre seus principais líderes Gregório Bezerra e, mais tarde, Francisco Julião. Lutavam pela reforma agrária e por melhores condições de vida para os trabalhadores rurais, razão pela qual seriam duramente reprimidas pelo regime militar.

Segundo Arraes, o movimento das Ligas caminhava paralelamente à sindicalização rural e reunia pequenos proprietários, foreiros e arrendatários. Francisco Julião dava maior visibilidade nacional à causa graças à sua capacidade de circular por diferentes ambientes e transformar a reforma agrária numa bandeira conhecida em todo o país. Arraes, que fora seu colega na Assembleia Legislativa, reconhecia sua importância e lembrava que atuara ao lado dele nas questões do campo. Mas fazia uma ressalva: o número de pessoas efetivamente engajadas nas Ligas não tinha a dimensão gigantesca que seus adversários divulgavam para alimentar o medo.

É assim que Miguel Arraes retorna às minhas lembranças: não apenas como o governador cercado por tanques, mas como um homem que atravessou a prisão, o exílio e a volta ao país sem abandonar a política. Falava dos acontecimentos com firmeza, mas sem espalhafato; com indignação, mas sem se deixar consumir pela mágoa.

De todas as suas palavras, uma advertência continua ressoando. É preciso contar o que aconteceu para que não volte a acontecer. A memória, quando se recusa ao silêncio, deixa de ser apenas uma janela aberta para o passado. Torna-se uma sentinela do futuro.

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