Há mais de dois mil anos, Platão criou uma das imagens mais extraordinárias da filosofia: a Alegoria da Caverna, apresentada no Livro VII de A República.
Ele nos pede que imaginemos homens que passaram toda a existência aprisionados no interior de uma caverna, voltados para uma parede. Atrás deles existe uma fogueira e, entre o fogo e os prisioneiros, passam pessoas carregando objetos. Na parede aparecem apenas as sombras desses objetos.
Como nunca conheceram outra coisa, aqueles homens acreditam que as sombras são a própria realidade.
Não conhecem o sol, as cores, as árvores, as flores, os pássaros ou a imensidão do céu. Não sabem sequer que existe um mundo lá fora.
Até que um deles consegue se libertar.
Caminha em direção à saída e, pela primeira vez, encontra a luz.
No início, seus olhos doem. Ele prefere quase retornar à segurança da escuridão que sempre conheceu. Mas, lentamente, começa a enxergar.
Descobre as cores.
Descobre a natureza.
Descobre o céu.
E compreende que passou grande parte da vida tomando sombras por realidade.
Platão utilizava essa extraordinária imagem para falar do conhecimento, da ignorância e da busca da verdade.
Mas permito-me transportar sua caverna para outro território da existência humana.
E se o amor também for uma maneira de sair da caverna?
Quando amamos verdadeiramente, alguma coisa muda na nossa maneira de enxergar o mundo.
Uma paisagem que antes passaria despercebida torna-se bonita. Uma música ganha significado. Uma viagem deixa de ser simplesmente um lugar visitado e passa a representar uma lembrança compartilhada.
Até o silêncio muda quando estamos ao lado de alguém que amamos.
Mas de que amor estamos falando?
Do amor entre um homem e uma mulher?
Do amor de pai e mãe?
Do amor pelos filhos?
Entre irmãos?
Dos avós pelos netos?
Ou da amizade?
Talvez estejamos falando de todos eles.
Platão tratou diretamente do amor em outra de suas grandes obras, O Banquete. Ali, por meio de diferentes discursos, procura compreender Eros e o desejo humano de alcançar aquilo que nos falta e nos conduz para além de nós mesmos.
Mas a vida nos ensina que o amor possui muitas formas.
Existe o amor dos pais pelos filhos, provavelmente uma das relações humanas em que mais aprendemos a dar sem fazer contas.
Existe o amor entre duas pessoas que resolvem compartilhar a existência. Um amor que começa muitas vezes com paixão, mas que, quando resiste ao tempo, transforma-se em companheirismo, tolerância, respeito e memória.
Existe o amor entre irmãos, formado numa infância compartilhada e preservado pelas lembranças de uma mesma origem.
E existe uma forma particularmente bonita: o amor dos avós pelos netos.
Talvez porque o avô, ao olhar para um neto, enxergue três tempos simultaneamente.
Enxerga o passado, porque reconhece nele traços dos filhos e de sua própria história.
Enxerga o presente, porque participa de sua formação e de suas descobertas.
E enxerga o futuro, porque sabe que aquela criança continuará caminhando por um mundo que ele próprio talvez já não conheça.
Há ainda a amizade.
Aristóteles, discípulo de Platão, escreveu na Ética a Nicômaco que existem amizades baseadas na utilidade, outras no prazer e aquelas, mais raras, fundamentadas na virtude e no desejo verdadeiro do bem do outro.
A idade talvez nos ensine a distinguir umas das outras.
Na juventude fazemos muitos conhecidos e acreditamos possuir muitos amigos.
O tempo se encarrega da seleção.
Alguns desaparecem quando desaparecem os interesses comuns. Outros permanecem durante décadas, mesmo quando a vida nos leva por caminhos diferentes.
São esses que importam.
Porque chega um momento em que uma conversa com um velho amigo pode valer mais do que muitas conquistas materiais.
Na juventude, imaginamos possuir uma quantidade inesgotável de tempo.
Queremos trabalhar, vencer, viajar, ganhar dinheiro, conquistar posições, formar uma família, disputar.












