Todo ano eleitoral revela a mesma coisa: a gente não sabe mais conviver com quem pensa diferente da gente.
Vira briga de família no grupo do WhatsApp. Vira climão no trabalho. Vira amizade que esfria porque alguém postou algo “do lado errado”. A política deixou de ser assunto e virou linha demarcatória, de um lado ou do outro, sem meio-termo, sem espaço pra ouvir.
Há um fenômeno nesse cenário que raramente é nomeado como o que é: o fanatismo. Quando uma posição política vira identidade, quando discordar de um partido passa a ser sentido quase como um ataque pessoal, a pessoa entra num estado de alerta permanente. Tudo vira motivo de indignação. Comentário nas redes vira briga. Quem pensa diferente deixa de ser interlocutor e passa a ser inimigo. Do ponto de vista psíquico, esse mecanismo costuma proteger de algo mais difícil de olhar: a própria incerteza, a sensação de não ter controle sobre o que vem. É mais fácil odiar um lado do que sentar com a angústia de não saber o que vai acontecer.
É mais fácil escolher um inimigo do que suportar a própria incerteza, e é aí que o fanatismo começa a fazer o trabalho que a angústia não consegue fazer sozinha.
Só que esse combate constante cansa, de um jeito que a pessoa muitas vezes nem percebe, até estourar em irritabilidade, isolamento, incapacidade de desligar a cabeça. O fanatismo também adoece. Disfarçado de convicção, é mais difícil de reconhecer como sofrimento.
Esse preço aparece de outras formas também. Como psicanalista, vejo isso chegar ao consultório de jeitos que nem sempre têm cara de “política”: insônia, irritabilidade fora do comum, uma sensação de ameaça que não se explica direito. A pessoa muitas vezes nem associa o mal-estar ao noticiário, só sente que está mais em carne viva.
A instabilidade, as incertezas econômicas, o volume absurdo de informação mexem com a sensação de segurança. Tem gente que não dorme direito nesse período. Fica com o pensamento acelerado, sem conseguir focar em nada. E quem já lida com ansiedade, fobia ou pânico sente isso ainda mais forte: cada notícia de crise parece confirmar que algo terrível está para acontecer.
Agora, é importante dizer: se preocupar com o rumo do país não é doença. Faz parte de viver em sociedade, de se importar com o coletivo. O problema é quando essa preocupação, seja pelo medo, seja pela militância inflamada, começa a comer o sono, os relacionamentos, o rendimento no trabalho.
E vale parar pra pensar em como a gente consome notícia. Horas grudado em política, principalmente antes de dormir, mantém o corpo em alerta. A cabeça precisa de um respiro, um momento em que ela não esteja tentando prever o amanhã, nem preparando o próximo argumento pra discussão de ontem.
Isso não é papo de “desliga e alienação”. Ninguém está sugerindo parar de se informar ou de participar da vida pública. É sobre achar um equilíbrio entre estar por dentro do mundo e não se destruir por causa dele.
Democracia é isso: gente diferente, discordando, e ainda assim dividindo o mesmo espaço com respeito. Não precisamos concordar em tudo. Mas seria bom parar de tratar toda divergência como ameaça, e parar de carregar bandeira o tempo todo, com todo mundo, em qualquer conversa. Quando a gente deixa de ouvir, perde a chance de entender uma realidade que não é a nossa.
Cuidar da cabeça nesse período também é saber colocar limite. Você não precisa responder toda provocação. Não precisa acompanhar cada notícia em tempo real. Escolher onde gastar energia também é autocuidado.
A política ocupa espaço na vida, e é bom que ocupe, é parte de viver junto. Mas ela não pode ocupar todo o espaço. Existe relacionamento, trabalho, sono, silêncio, e tudo isso também merece lugar.
Se você percebe que as discussões, as notícias ou a insegurança com o futuro estão mexendo com o seu sono, aumentando suas crises de ansiedade ou atrapalhando sua rotina, procure ajuda. O sofrimento merece escuta, independente da sua posição política.
O maior sintoma deste ano eleitoral não é a ansiedade que a política provoca, é o quanto perdemos a capacidade de discordar sem adoecer o outro, e a nós mesmos, no processo.












