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Dor na mandíbula depois de um dia difícil: coincidência ou existe uma explicação? – por Cristiane Sanchez

Você termina um dia daqueles. Muito trabalho, problemas para resolver, mensagens chegando, trânsito, pouco tempo para comer com calma. Quando finalmente se senta, percebe alguma coisa diferente. A mandíbula está cansada. Existe um peso na lateral do rosto, uma dor perto do ouvido ou uma sensação estranha de tensão ou rigidez.

É tentador resumir a cena dizendo: “foi o estresse”. Mas a relação entre um dia difícil e uma mandíbula dolorida é mais interessante do que isso.

A mandíbula não passa o dia isolada do restante do corpo. Ela participa da nossa fala, da mastigação, das expressões faciais e também de comportamentos que fazemos sem perceber. Enquanto estamos acordados, algumas pessoas apertam os dentes, mantêm a mandíbula contraída ou os dentes em contato por longos períodos sem ter consciência disso. Isso não significa necessariamente doença, mas pode se tornar relevante quando se repete por horas e está associado à dor.

As disfunções temporomandibulares, chamadas de DTM, envolvem condições que podem atingir os músculos da mastigação, as articulações da mandíbula e estruturas relacionadas. Podem aparecer como dor, cansaço muscular, dificuldade para abrir a boca, estalos, sensação de travamento e, em alguns casos, dor de cabeça.

A dor, porém, não depende apenas do que acontece exatamente no lugar onde ela é sentida. O sistema nervoso participa ativamente dessa experiência. Ele recebe informações do corpo, interpreta o contexto e regula a maneira como respondemos a elas.

Pense em uma pessoa que dormiu mal. Ela acorda cansada, toma café às pressas, sai para trabalhar e passa horas diante do computador. Pula o almoço ou come rapidamente. Durante boa parte do dia, está concentrada, preocupada ou tentando dar conta de várias demandas ao mesmo tempo.

A mandíbula pode permanecer contraída sem que ela perceba. À noite, surge a dor.

Pode parecer que tudo começou naquele momento. Na verdade, o corpo já vinha atravessando uma longa sequência de pequenas exigências.

O sono merece atenção especial nessa história. Pesquisas que acompanham pessoas ao longo do tempo vêm mostrando uma relação importante entre qualidade do sono e quadros dolorosos de DTM. Isso não significa que uma noite mal dormida vá provocar uma disfunção temporomandibular. Mostra que sono e dor conversam muito mais entre si do que costumamos imaginar.

Nós gostamos de organizar a vida em gavetas: trabalho de um lado, sono de outro, alimentação, emoções, exercício físico, dor. O organismo não faz essa divisão tão bem.

O corpo recebe tudo isso ao longo das mesmas 24 horas.

Uma noite curta de sono, horas sentado, pouco movimento, alimentação irregular, excesso de estimulantes, preocupação constante, ausência de pausas e uma mandíbula mantida sob tensão podem compor um cenário de menor recuperação.

Nenhum desses elementos, isoladamente, explica toda a dor. Juntos, porém, ajudam a compreender por que algumas pessoas passam a perceber mais desconforto, cansaço muscular e sensibilidade.

Por isso, quando a mandíbula dói, nem sempre basta olhar apenas para o ponto dolorido. Se o desconforto aparece junto de noites mal dormidas, tensão acumulada ao longo do dia ou hábitos como apertar os dentes sem perceber, cuidar desses fatores também pode fazer parte do caminho para melhorar.

O primeiro passo pode ser simplesmente perceber. Em algum momento do dia, pare por alguns segundos e observe sua mandíbula. Seus dentes estão encostados? Você está fazendo força? Os músculos do rosto parecem tensos?

Pode parecer um gesto pequeno, mas perceber um comportamento é o primeiro passo para modificá-lo.

Quando a dor se torna mais frequente, outros cuidados podem ser necessários. Exercícios orientados, mudanças de alguns hábitos e orientações para compreender e lidar melhor com a dor podem ajudar. A fisioterapia também pode fazer parte desse cuidado, dependendo do quadro, assim como a avaliação de um dentista quando o desconforto persiste, limita os movimentos ou interfere na rotina.

A acupuntura é outra possibilidade. Diretrizes recentes incluem essa prática entre as opções que podem ser consideradas para algumas pessoas com dor crônica associada à DTM. Mais do que esperar que um único recurso resolva tudo, faz sentido pensar no alívio da dor dentro de um cuidado que também leve em conta sono, hábitos e aquilo que acontece ao longo do dia.

A meditação pode ajudar por outro caminho. Quando permanecemos sob pressão durante muitas horas, pode ser difícil desacelerar mesmo depois que o dia termina. O corpo continua em alerta, os músculos permanecem tensos e a mente ainda parece ocupada com tudo o que aconteceu.

Práticas meditativas podem ajudar a interromper um pouco esse ritmo. Um estudo recente realizado com mulheres com DTM dolorosa crônica encontrou benefícios em aspectos relacionados à dor, ao estresse e à forma de lidar com essa experiência.

Isso não significa substituir uma avaliação ou um tratamento necessário por meditação. Significa reconhecer que existem diferentes maneiras de participar do cuidado e de ajudar o corpo a recuperar equilíbrio depois de períodos prolongados de exigência.

O corpo não termina o dia no mesmo estado em que começou. Ele carrega as marcas das horas vividas: movimento, tensão, pressa, descanso, atenção e adaptação.

A mandíbula, ao fim de um dia difícil, pode ser apenas o lugar onde essa história se torna perceptível.

Referências para consulta

  1. Slade GD, Ohrbach R, Greenspan JD, et al. Painful Temporomandibular Disorder: Decade of Discovery from OPPERA Studies. Journal of Dental Research. 2016;95(10):1084-1092. doi:10.1177/0022034516653743.
  2. Busse JW, Casassus R, Carrasco-Labra A, et al. Management of chronic pain associated with temporomandibular disorders: a clinical practice guideline. BMJ. 2023;383:e076227. doi:10.1136/bmj-2023-076227.
  3. Melchior MO, Magri LV, Díaz-Serrano KV, et al. Impact of a Mindfulness-Based Intervention on Pain and Psychological Factors in Women With Chronic Painful Temporomandibular Disorders. Journal of Oral Rehabilitation. 2025;52(12):2269-2281. doi:10.1111/joor.70028.
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