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Nossa Senhora Aparecida não vota! – por Gaudêncio Torquato

Será que Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, influirá no voto neste domingo? Será que o manto da santa poderá empurrar a eleição para o segundo turno? A resposta exige separar a fé verdadeira da fabricação eleitoral. Nossa Senhora não vota, não escolhe candidatos e não desce do altar para entrar no palanque. Quem vota são milhões de brasileiros devotos, sujeitos, como todos os eleitores, ao medo, à esperança e à manipulação. É justamente esse sentimento religioso que as campanhas resolveram explorar na hora mais tensa da disputa.

A notícia que incendiou as redes é falsa. Flávio Bolsonaro não apresentou nem anunciou projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A história nasceu da ressurreição de um projeto de lei de 2007, apresentado pelo então deputado Victório Galli. O texto pretendia substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”, mas foi arquivado em 2008. Não há prova de que Flávio tenha participado da iniciativa ou pretenda retomá-la. A Lei nº 6.802, de 1980, continua em vigor, declarando 12 de outubro feriado nacional em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil.

Os fatos, porém, perderam velocidade para a emoção. Quando a mentira alcançou as redes, já não importava tanto saber de onde saíra, mas em quem poderia ferir. A falsa ameaça à Padroeira tocou uma das fibras mais sensíveis do país. Segundo o Censo de 2022, 56,7% dos brasileiros com 10 anos ou mais se declaravam católicos, enquanto 26,9% se identificavam como evangélicos. Transformar essa diversidade religiosa numa guerra eleitoral é acender um fósforo perto de um depósito de afetos, ressentimentos e identidades.

Flávio Bolsonaro ajudou a preparar o terreno para a desconfiança ao declarar que, se eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Sua campanha afirma agora que a frase era simbólica. Pode ser. Mas um candidato à Presidência deve saber que as palavras de quem pretende governar não são apenas orações particulares: têm peso institucional. Num Estado laico, o presidente não pode consagrar a República a uma fé, por mais majoritária que ela seja. A liberdade religiosa existe precisamente para proteger católicos, evangélicos, espíritas, adeptos de religiões de matriz africana, judeus, muçulmanos, ateus e todos os demais.

Lula, por sua vez, percebeu rapidamente a oportunidade aberta pelo boato. Passou a defender publicamente a permanência do título da santa, apareceu com imagens religiosas e deixou que aliados apresentassem sua candidatura como uma espécie de muralha protetora do catolicismo. O candidato que costuma condenar a mistura entre religião e política acabou levando a religião ao centro do palanque. Combater uma notícia falsa exige restabelecer a verdade, não aproveitar seus dividendos emocionais. Quando uma mentira é politicamente útil, a tentação de apenas desmenti-la pela metade — conservando o medo que ela produziu — torna-se enorme.

Eis o populismo eleitoreiro em sua forma mais acabada. Ele simplifica uma sociedade complexa, divide o mundo entre protetores e inimigos, transforma o adversário em ameaça moral e oferece o candidato como salvador. Em vez de argumentos, símbolos; em vez de programas, devoções; em vez de cidadãos, fiéis mobilizados pelo receio de perder aquilo que consideram sagrado. O santo deixa de ser objeto de fé e vira cabo eleitoral. A religião, que deveria aproximar, passa a separar. E a campanha, já sangrenta no campo das reputações, invade o altar em busca dos últimos votos.

Nunca se viu, nesta disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, uso tão ostensivo de santos, pastores, padres, imagens, orações e declarações de fé como instrumentos de convencimento. O bolsonarismo fez da religião uma coluna de sua identidade política e, em eleições anteriores, difundiu a mentira de que Lula fecharia igrejas. Agora, setores identificados com o campo adversário provam do mesmo veneno ao fazer circular uma falsidade contra Flávio. A desinformação muda de mãos, mas conserva o método: primeiro fabrica-se o medo; depois apresenta-se o candidato que promete livrar o eleitor do perigo inventado.

Pode o episódio alterar votos? Pode, sobretudo entre os eleitores menos vinculados aos candidatos e entre católicos tocados pela ideia de uma agressão à Padroeira. A pesquisa Quaest feita no calor da controvérsia registrou avanço de Lula entre católicos, mas a própria fotografia estatística não permite atribuir a oscilação exclusivamente ao caso. Outros fatos ocorreram no mesmo período, e os recortes religiosos têm margens de erro maiores. Também houve reação contrária: eleitores passaram a ver Flávio como vítima de uma armação, enquanto Lula foi acusado de instrumentalizar a fé. Nas redes, levantamento da Datrix apontou desgaste para ambos, mais intenso para Flávio.

Quanto ao segundo turno, ele já era o desfecho mais provável antes de Nossa Senhora ser arrastada para o conflito. As pesquisas mais recentes mostram Lula e Flávio concentrando a maioria dos votos, mas sem segurança de ultrapassar, no primeiro turno, a metade dos votos válidos. A fake news pode deslocar pequenas parcelas, aumentar rejeições e reforçar tendências. Não há base, contudo, para atribuir a ela, isoladamente, o poder de decidir se haverá nova votação. Eleições nacionais resultam da soma do bolso, da avaliação do governo, da segurança pública, das rejeições, dos programas sociais, das identidades partidárias e, agora, também das guerras religiosas fabricadas na internet.

Nossa Senhora Aparecida pertence à fé do povo, não ao patrimônio de uma candidatura. Usá-la para espalhar falsidades é uma violência contra os eleitores e contra a própria religião. A democracia começa a adoecer quando o voto deixa de ser uma escolha racional entre projetos de governo e se converte numa batalha entre o céu e o inferno inventada pelos marqueteiros.

Neste domingo, o eleitor deve entrar na cabine com suas crenças, naturalmente, mas também com a consciência de que nenhum candidato possui procuração divina. A Padroeira do Brasil não precisa ser salva por Lula nem por Flávio Bolsonaro. Quem precisa ser salva é a verdade — cada vez mais sacrificada no altar do populismo eleitoral.


Gaudêncio Torquato é professor emérito da USP, escritor, jornalista e consultor político.

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